Osservatore Romano/Handout via REUTERS
Osservatore Romano/Handout via REUTERS

Papa se reúne com vítimas das Farc na Colômbia

Em Villavicencio, Francisco se emociona ao ouvir relatos de pessoas afetadas pela guerra

Fernanda Simas  ENVIADA ESPECIAL / BOGOTÁ, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2017 | 22h45

O papa Francisco se reuniu nesta sexta-feira, 8, com vítimas do conflito armado colombiano, no principal evento político de sua viagem, reforçando a importância que as vítimas tiveram nas negociações de paz entre Bogotá e a ex-guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), das quais a Igreja participou. 

“A visita de Francisco a Villavicencio marca o reconhecimento de que o fim do conflito tem como primeiros beneficiários as vítimas” explica Gerson Arias, diretor do Escritório do Alto Comissionado para a Paz. “Ajuda dizer aos preocupados com a demora nos avanços da implementação do acordo que as coisas vão devagar, mas o primeiro impacto é sobre essas vítimas.”

Durante a cerimônia no Parque Las Malocas, o pontífice escutou quatro histórias de vítimas e, no momento mais emocionante do evento, viu a pastora Mira García ser aplaudida em pé após contar as diversas vezes em que sofreu com a violência. Vinda de San Carlos, em Antioquia, ela contou que, aos 6 anos, seu pai foi assassinado. Mais tarde, seu marido também foi morto quando a filha deles tinha dois meses. “Em 2001, os paramilitares levaram minha filha Sandra Paola. Eu a procurei, mas encontrei seu corpo depois de sete anos”, lembrou. 

Juan Carlos Murcia Perdomo, ex-guerrilheiro das Farc, contou ter sido recrutado com 16 anos e ter permanecido no grupo por 12 anos. Ele perdeu a mão esquerda manipulando explosivos. Ele, no entanto, explicou que demorou “para perceber que estava errado” e deixar a guerrilha. Hoje reintegrado à vida civil, Perdomo citou a necessidade de haver mais oportunidades no país. 

O papa Francisco, ao agradecer aos quatro, afirmou que todos são vítimas da violência. “De um modo ou de outro, somos vítimas, inocentes ou culpados, todos somos vítimas”, disse. O pontífice pediu mais uma vez que os colombianos evitem a vingança. “A verdade deve ser dita e não deve levar à vingança, mas à reconciliação”.

Na noite de quinta-feira, Rodrigo Londoño, conhecido como Timochenko, hoje presidente do partido surgido da ex-guerrilha Farc, enviou uma carta ao papa dizendo estar “profundamente comovido” pela presença do pontífice no país e pedindo perdão “por qualquer lágrima ou dor que possamos (Farc) ter causado ao povo da Colômbia”.

No documento, Timochenko cita o acordo de paz feito com o governo de Santos e diz que, mais de uma vez, presenciou a falta de compromisso por parte de funcionários do governo em cumpri-lo, mas que isso não mudaria a decisão das Farc de deixar as armas e se reintegrar à vida civil como partido político. 

Emoção. O pontífice também se emocionou e se dirigiu às outras duas vítimas que contaram suas dificuldades hoje: Deisy Sánchez Rey, recrutada aos 16 anos pelas Autodefensas Unidas de Colombia (AUC). Após ficar presa por dois anos, ela resolveu deixar o grupo, mas só conseguiu em 2006, após a desmobilização do Bloque Puerto Boyacá. “Hoje, tenho a convicção de que os danos causados pela violência podem ser revertidos”, disse Deisy.

Luz Dary Landazury foi vítima de uma mina terrestre, em 2012, que rompeu seu tendão de Aquiles, fraturou a tíbia, o perônio e deixou sequelas em seu andar. “O mais difícil, porém, foi ver minha filha de sete meses coberta de sangue e com estilhaços de vidro pelo rosto”, falou Luz Dary.

Francisco cumprimentou cada um dos quatro e pediu que “os colombianos sejam capazes de perdoar uns aos outros”. “Desde o primeiro dia (da viagem), eu esperava por esse momento. Venho aqui com uma consciência clara de estar pisando em um terreno sagrado, uma terra regada com o sangue de milhares de vítimas inocentes e com a dor de seus parentes, feridas que custam a cicatrizar”, concluiu o papa. Mais cedo, o papa havia beatificado dois religiosos colombianos mortos durante o conflito armado no país.

Em Bogotá, o chefe negociador do governo nos diálogos com o ELN, Juan Camilo Restrepo, assegurou que a visita de Francisco teve grande influência para o acordo de cessar-fogo bilateral temporário fechado na semana passada em Quito. O negociador explicou ainda que a Igreja desempenhará um papel de verificação e supervisão da trégua, que começa no dia 1° de outubro. Uma comissão de bispos acompanha o processo de negociação entre a guerrilha e Bogotá. Na semana passada, um grupo de 10 vítimas do conflito foi ouvido na mesa de conversações. 

Restrepo também reforçou a importância da beatificação de monsenhor Jaramillo como “uma boa ocasião, primeiro para que eles (ELN) peçam perdão e, segundo, que a partir de agora o ELN reafirme a vontade de reconciliação”.

 

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