Papéis de Bin Laden expõem rixas internas

Documentos encontrados na casa onde líder da Al-Qaeda foi morto são divulgados pelos EUA

WASHINGTON , O Estado de S.Paulo

04 Maio 2012 | 03h04

O alto escalão dos líderes da Al-Qaeda estava repleto de divisões sobre questões táticas, estratégicas e até de marketing nos meses que antecederam a morte de Osama bin Laden. Segundo documentos apreendidos durante a missão da Marinha americana que matou Bin Laden, o terrorista pediu ao comando central da rede que privilegiasse atentados contra alvos americanos.

Uma década após os ataques terroristas que derrubaram o World Trade Center e destruíram parte do Pentágono, líderes do grupo terrorista divergiam sobre seu grau de associação com outras organizações extremistas, a prioridade de atacar os EUA para conquistar o apoio dos muçulmanos, a extorsão a traficantes de drogas e até uma mudança de nome.

"Bin Laden esforçou-se para aconselhá-los a abortar ataques domésticos que provocavam baixas entre civis muçulmanos e se concentrassem, em vez disso, em ataques contra os EUA, 'nossa principal meta'", indica o relatório, batizado de "Cartas de Abbottabad: Bin Laden afastado do poder?", divulgado pelo Centro de Combate ao Terrorismo dos EUA.

Os documentos reafirmam que Bin Laden tentou organizar operações para assassinar o presidente Barack Obama ou o general David Petraeus, ex-comandante da guerra ao Taleban, hoje diretor da CIA. O saudita propôs que fossem preparadas duas unidades de combate, uma no Paquistão e outra em Bagram, Afeganistão, local de uma importante base americana, para organizar ataques contra aeronaves transportando Obama ou o general Petraeus.

Bin Laden escreveu que a morte de Obama resultaria na ascensão do vice-presidente Joe Biden considerado "totalmente despreparado" e concluía que "a morte de Petraeus teria um impacto sério no curso da guerra", pois ele seria "o responsável pelo estágio atual".

Perda de influência. Os documentos revelaram um debate intenso envolvendo o relacionamento entre o comando central da Al-Qaeda e os vários grupos afiliados, sobre os quais Bin Laden exercia pouco controle. Alguns de seus principais tenentes defendiam o afastamento dos braços mais distantes da organização, enquanto outros pressionavam por uma maior integração com esses elementos.

O próprio Bin Laden queria manter contato com esses grupos, oferecendo-lhes orientação sem incorporá-los de fato à Al-Qaeda. Ele enxergava alguns dos afiliados como incompetentes e criticava as operações que resultavam na morte de muçulmanos.

Ficou claro que Bin Laden não foi informado com antecedência do atentado frustrado na Times Square, em maio de 2010, e expôs sua reprovação ao Taleban paquistanês, que orquestrou a operação. Em especial, ele se incomodou com o fato de Faisal Shahzad, detido no episódio, ter mentido ao fazer o juramento de lealdade no processo de concessão de cidadania americana.

Da mesma maneira, o terrorista saudita parecia não ter uma opinião muito favorável a respeito de Anwar al-Awlaki, militante nascido nos EUA e morto durante o ataque de um avião não tripulado no Iêmen em 2011, e alertou para as "perigosas consequências" da Inspire, revista em língua inglesa produzida pela Al-Qaeda da Península Arábica, aparentemente considerando seu conteúdo de mau gosto.

Distanciamento. Os documentos indicam ainda que talvez Bin Laden não fosse tão próximo de Ayman al-Zawahiri, seu substituto e eventual sucessor, quanto alguns imaginavam. Zawahiri é citado apenas ocasionalmente nas cartas e não parece ser uma referência para consultas. De fato, o comando central da rede sugeriu que o número 2 da rede poderia até ter agido contra a vontade de Bin Laden ao admitir a inclusão de grupos afiliados na Al-Qaeda.

Outro líder da Al-Qaeda, chamado Atiyyatullah, também conhecido como Atiyya, parecia ser mais próximo de Bin Laden. Para algumas das pessoas que acompanham há anos a situação da Al-Qaeda, a revelação de que Bin Laden usava Atiyya como uma espécie de conselheiro-chefe foi o dado novo mais surpreendente. / THE NEW YORK TIMES

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