Papel climático do Conselho de Segurança opõe Rússia ao Ocidente

Governos ocidentais desenvolvidos divergiram da Rússia e de alguns países em desenvolvimento na quarta-feira a respeito da tese de que a mudança climática é uma questão merecedora das atenções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

PATRICK WORSNI, REUTERS

20 de julho de 2011 | 18h57

Diplomatas disseram que a Rússia bloqueou, ao menos temporariamente, a adoção de uma declaração do Conselho acerca da ameaça representada pela mudança climática para a paz e a segurança internacionais. Eles afirmaram que uma nova versão do texto será discutida entre os 15 países que formam o Conselho, mais importante instância da ONU.

A divergência surgiu no momento em que o Conselho debateu formalmente uma questão ambiental pela primeira vez em quatro anos, e depois de sombrios alertas de um dirigente da ONU sobre a aceleração do aquecimento global, com consequências imprevisíveis.

No debate convocado pela Alemanha, que preside o Conselho neste mês, oradores ocidentais disseram que a crescente aridez provocada pela mudança climática já contribuiu com conflitos na região sudanesa de Darfur e na Somália, onde na quarta-feira a ONU declarou situação de fome generalizada em duas áreas.

A embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, disse que Washington acredita fortemente que o Conselho "tem uma responsabilidade essencial de tratar das evidentes implicações de um clima em mutação para a paz e a segurança", e que deve fazer isso "desde já."

Sem citar nominalmente nenhum país, ela disse que "por causa da recusa de alguns poucos em aceitar a nossa responsabilidade, este Conselho está dizendo por meio do seu silêncio, na prática, 'azar o seu'", disse ela. "Isso é mais do que frustrante. É patético. É míope, e francamente é uma prevaricação do dever."

Já o representante russo, Alexander Pankin, se disse "cético" sobre as tentativas de colocar as implicações da mudança climática na pauta do Conselho, o que, segundo ele, enfrenta a oposição de vários países.

"Acreditamos que envolver o Conselho de Segurança numa revisão regular da questão da mudança climática não irá agregar valor algum e irá meramente levar a uma maior politização dessa questão e a mais discordâncias entre os países."

Índia e Brasil, membros temporários do Conselho, também disseram duvidar da conveniência de envolver essa instância no debate. O embaixador indiano, Hardeep Singh Puri, disse que o Conselho "não tem os meios para tratar da situação."

Nações em desenvolvimento se queixam da suposta tentativa dos países poderosos do Conselho de interferirem no território da Assembleia Geral, que reúne os 193 países da entidade, e na Convenção-Quadro da ONU sobre a Mudança Climática.

Durante o debate, Achim Steiner, diretor do Programa Ambiental da ONU, disse que a mudança climática está ocorrendo mais rapidamente do que as tentativas de contê-la, que se dão por meio de lentas negociações a respeito de metas de emissão de gases do efeito estufa e outras medidas.

Ele citou projeções de que algumas partes do mundo terão aumentos de temperatura da ordem de 5,4 graus a 7,2 graus Celsius neste século, enquanto os negociadores buscam limitar isso a 2 graus.

"O mundo está confrontado com um cenário de aquecimento global que já está bem além daquilo que acreditávamos que poderíamos gerenciar ... caso consigamos concluir as negociações", disse Steiner ao Conselho.

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