REUTERS/ Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/ Carlos Garcia Rawlins

Forças Armadas causaram ruptura democrática na Bolívia, dizem analistas

Analistas ouvidos pelo 'Estado' dizem que Forças Armadas pressionaram Evo a sair do poder após ele ter minado sua legitimidade

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2019 | 21h56

As Forças Armadas tiveram papel decisivo na renúncia do ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, pressionado por manifestações desde 21 de outubro, um dia depois da eleição marcada por denúncias de fraudes e protestos ininterruptos.

Para analistas, a conclusão é de que Evo minou sua legitimidade ainda em 2017, após uma corte mudar as regras eleitorais na Bolívia, contrariando decisão de um plebiscito no ano anterior em relação ao número permitido de reeleições consecutivas, assim permitindo que Evo disputasse uma nova eleição.

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Na avaliação de Lucas Leite, professor de relações internacionais da FAAP, houve uma ruptura democrática no momento em que o chefe das Forças Armadas exigiu que Evo deixasse o poder. "A entrada dos militares na questão mostra que a política foi colocada de lado. Militares não devem se ocupar de processos de nenhum país considerado democrático", afirmou, dizendo que Evo havia cedido a pressões, como a necessidade de uma nova eleição, e tentava pacificar o país. 

O cientista político Hussein Kalout, pesquisador da Universidade de Harvard, diz que Evo foi praticamente forçado a deixar o poder, mas sustenta que agora é preciso analisar como se portarão seus apoiadores e opositores, já que nenhum dos lados tem apego claro às regras do jogo democrático. “O vácuo de poder será preenchido de maneira constitucional? As novas autoridades conseguirão restabelecer a tranquilidade para organizar novas eleições transparentes, competitivas e limpas?”, questionou. 

Kalout defende que o Brasil ajude a Bolívia a organizar novas eleições e se estabilizar, já que toda e qualquer instabilidade regional respinga em interesses brasileiros, como a dependência energética do gás boliviano. Para isso, diz ser preciso tomar o partido da democracia e da Constituição e não de uma força política. 

"É preciso evitar a propensão do governo brasileiro de condenar automaticamente Evo Morales por todos os males se quisermos nos manter relevantes. Nesta hora, é necessário ter isenção política para estender a mão e ajudar a apaziguar os ânimos, inclusive por meio de apoio e cooperação na organização de novas eleições" disse.

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Para Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM, a concentração de poder nas mãos de Evo e o fato de não mais responder às expectativas da população fortaleceram o movimento por sua saída. 

"Houve manifestações com relação à falta de políticas públicas mais eficazes, à segurança, à presença do narcotráfico, à manipulação das eleições e à falta de renovação política", disse. "São fatores que geraram um caldo para as grandes manifestações que vemos”. 

Futuro

Para Leite, parte da oposição liderada pelo advogado Luis Fernando Camacho tem discurso reacionário que nega a pluralidade e o multiculturalismo boliviano. "É um certo elitismo que rompe com o que era considerado um governo popular. Há um certo messianismo, com o uso da Bíblia, de armas, e uma contraposição aos grupos menos privilegiados do país". 

América Latina

Na avaliação de Sérgio Veloso, professor do Instituto de Relações Internacionais da Puc-Rio, a América Latina hoje passa por um processo de instabilidade, com o enfraquecimento das instituições democráticas e das economias. "A geopolítica da região está se redesenhando", afirmou. 

Para ele, há um consenso de que o status quo não tem atendimento mais a demandas populares. "A questão é para onde vai o caminho das reformas", conclui. 

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