Papon se livra da prisão, mas não de seu passado

Um homem velho, um homem muito velho, de 92 anos, deixou na tarde de hoje o presídio Santé, onde estava preso desde 1999 e deveria permanecer até 2009. Esse não é um homem comum. Maurice Papon é um símbolo: o símbolo da "colaboração" da França do marechal Pétain, de 1940 a 1944, com Hitler. E o símbolo da mais ignóbil conseqüência dessa colaboração: a deportação dos judeus franceses para o campo de concentração parisiense de Dancy para as câmaras de Auschwitz.Se a justiça curiosamente decidiu libertar Papon foi, segundo ela, rigorosamente por motivos de saúde: muito idoso, com o coração fortemente doente e quase inválido, Papon beneficiou-se de uma lei que prevê clemência diante de "patologias com base em um prognóstico vital".A decisão da justiça deixa muita gente indignada: "Ele não deu provas da mesma clemência em outubro de 1942", diz um dos promotores, aludindo a um ato particularmente ignóbil de Papon quando, em 1942, negou hospitalizar seis judeus que sofriam de graves problemas de saúde, enviando-os para os fornos.Durante seu processo, Papon declarou: "Eu não sabia que aquelas pessoas iriam para a Alemanha e seriam queimadas". Será que ele disse a verdade? É certo que poucas pessoas conhecem a "Shoah", mas parece que um alto funcionário como Papon deveria ter algumas informações.Essa tarde, a opinião pública está dividida: existem os nostálgicos de Pétain ou os simples "anti-semitas" que comemoram. Há os "misericordiosos", que querem apagar a lembrança do horror.E depois, entre os que estão indignados, há várias tendências: alguns pensam que um crápula como esse deveria morrer na prisão. Outros avaliam que a condenação de Papon foi, indiretamente, a do regime de Vichy (o regime "colaborador" do marechal Pétain) e que a libertação de Papon vem, então, justificar o período sombrio da colaboração com os nazistas.Finalmente, outros se perguntam se não se trata de uma justiça de classe: sem dúvida, a lei prevê a libertação de presos muito velhos ou muito doentes. Mas, na realidade, nem sempre essa lei é aplicada, salvo em casos de pessoas eminentes, tais como Maurice Papon.Enfim, alguns se dizem muito mais enojados com a decisão porque Papon não se contentou em expedir, em 1942, judeus para a Shoah. O homem, que é muito inteligente, é também astuto. Em 1943, percebendo que a Alemanha ia ser derrotada, conseguiu se incorporar às fileiras da "Resistência" contra os alemães.Assim, em 1945, esse homem jovem de 30 anos, alto funcionário brilhante, comprometido até o pescoço com os torturadores, encontrava-se no campo dos "resistentes", o que lhe permitiu retomar uma longa carreira extremamente brilhante.Paradoxo: em 1957, o "ex-pró-alemão" foi nomeado delegado de polícia pelo general De Gaulle, ou seja, pelo símbolo mais brilhante da Resistência à ordem tenebrosa de Hitler.Mais tarde, Papon continuou seu destino suntuoso: o presidente Valéry Giscard d´Estaing nomeou-o seu ministro das Finanças em 1978.Nessa segunda parte de sua carreira, ele manifesta a mesma frieza, a mesma desumanidade e a mesma ideologia que nos tempos em que servia o regime desleal do marechal Pétain. Especialmente quando era delegado de polícia, na época de De Gaulle, organizou em Paris a repressão assassina das manifestações organizadas em apoio aos "independentistas" argelinos. E o fez com uma violência de dar náuseas: seus policiais mataram dezenas de argelinos e jogaram um grande número deles no Sena.Esse é o homem que deixa o presídio Santé. É verdade que ele está cansado, doente. É verdade que está nas vésperas de sua morte. Hoje voltou para sua casa, onde levará uma vida tranqüila. Será que vai ouvir, em suas noites de homem que volta a ser livre, os gritos de horror das crianças queimadas em Auschwitz?

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