Paquistanesa vítima de estupro coletivo fala sobre libertação de acusados

Suprema Corte do Paquistão decidiu libertar homens que cumpriram ordem de estupro coletivo contra Mukhtaran Mai em 2002.

Aleem Maqbool, BBC

27 de abril de 2011 | 11h27

Todos os dias, Mukhtaran Mai, uma paquistanesa de um vilarejo da província do Punjab, sul do país, enfrenta o trauma de ter sido vítima de um estupro coletivo.

Há nove anos, o conselho de anciãos da vila onde Mai vivia determinou que ela fosse estuprada por seis homens. Esta decisão foi a punição pelo fato de seu irmão, que na época tinha 12 anos, ter tido um caso com uma mulher de outro clã.

Em vez de cometer suicídio, como muitas mulheres paquistanesas estupradas, Mai iniciou uma batalha legal e se tornou símbolo da defesa dos direitos humanos no país.

Em 2002, os acusados pelo estupro foram detidos e julgados. A Justiça paquistanesa condenou os seis à morte.

Mas, na semana passada, a Suprema Corte do Paquistão decidiu libertar cinco dos seis acusados de estupro e trocar a sentença de morte do sexto por prisão perpétua.

"Estou magoada e preocupada, passando pelas mesmas coisas que passei em 2002, trouxe de volta toda a dor", disse Mai em entrevista à BBC.

Ela conta que, há nove anos, foi uma decisão do conselho tribal, mas agora é pior, pois se trata do veredito da Justiça paquistanesa.

Abrigo e fama

Desde o ataque, Mai, que era analfabeta, fundou uma escola para meninas e um abrigo para mulheres. Ela recebeu prêmios internacionais por sua coragem e sua biografia foi publicada no mundo todo.

Mai ainda diz que, se os homens libertados voltarem para o vilarejo, ela teme pela própria segurança e pela segurança das alunas de sua escola. Mas, ela também teme por outras mulheres que sofreram abusos e seguiram seu exemplo.

Muitas procuram o abrigo dirigido por Mai. Como o exemplo de Nasreen, 12 anos e nome falso por motivos de segurança, que foi estuprada pelo próprio pai.

No abrigo para mulheres ela recebe ajuda, mas a situação dela é difícil.

Shazia Amin, gerente do abrigo, conta que está fazendo de tudo para ajudar Nasreen.

"Mas todas a meninas agora sabem o que aconteceu no caso de Mukhtaran Mai, todos estão preocupados e desanimados."

O sentimento é de que, se os acusados no caso mais famoso do país podem ser libertados, então, há pouca esperança de haver justiça no Paquistão para meninas como Nasreen.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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