Paquistaneses falam em "chupar o sangue" dos norte-americanos

Se os Estados Unidos usarem o espaço aéreo e o território do Paquistão para atacar o Afeganistão, as tropas norte-americanas podem se preparar para enfrentar forte hostilidade por parte de paquistaneses simpáticos ao Taleban, a milícia que controla 95% do Afeganistão. "As pessoas vão chupar o sangue deles", declarou Wazir Khan, um trabalhador vivendo nas proximidades da fronteira entre os dois países.Enquanto a maioria dos paquistaneses condena o terrorismo, alguns dizem que estão prontos para se unirem a uma guerra santa contra os EUA, e possivelmente contra seu próprio governo, se os Estados Unidos atacarem o Afeganistão em retaliação aos ataques terroristas da semana passada.Em mesquitas, lojas e nas ruas da província Fronteira Noroeste do Paquistão, uma das mais conservadoras áreas do país, as pessoas estão revoltadas com a idéia de o Paquistão colaborar com os EUA nos ataques retaliatórios. Líderes religiosos convocaram uma greve geral e protestos de rua na sexta-feira, o dia sagrado islâmico, para manifestarem sua oposição à idéia.A situação na fronteira afegã-paquistanesa está cada vez mais tensa. O Paquistão fechou a fronteira, fazendo voltar milhares de afegãos tentando fugir por temor de um iminente ataque norte-americano. As duas nações reforçaram a presença militar ao longa da fronteira de 2.500 km, enviando tropas e armamentos adicionais.Afegãos num campo de refugiados nas proximidades da cidade paquistanesa de Peshawar, cerca de uma hora de carro da fronteira, xingaram repórteres ocidentais visitantes e bateram com os punhos em seus carros. O Paquistão prometeu dar "pleno apoio" aos Estados Unidos se houver um ataque contra o Afeganistão - algo que parece provável pelo fato de os talebans darem abrigo a Osama bin Laden, o principal suspeito dos ataques de 11 de setembro."Os EUA estão apoiando uma arma nos ombros do Paquistão para atirar no Afeganistão. Os paquistaneses não podem aceitar isso", disse Haji Abdul Razzaq, 50 anos, proprietário de uma loja de autopeças em Peshawar.Na segunda-feira no Afeganistão, líderes do Taleban advertiram sobre um possível ataque militar dos EUA e pediram aos afegãos para se prepararem para uma jihad, ou guerra santa, contra os EUA. O Paquistão enviou uma delegação de alto nível na segunda-feira para entregar uma mensagem ao Taleban: ou entregam Bin Laden ou enfrentarão um duro ataque. O líder supremo do Taleban, mulá Mohammed Omar, entregou a decisão ao grande conselho islâmico, ou ulemá, que se reunirá na capital, Cabul, para discutir o ultimato.Se o Paquistão permitir que tropas norte-americanas usem seu território para atacar o Afeganistão, como tem sido sugerido, essas tropas podem se preparar para enfrentar animosidade generalizada em locais como Peshawar.O presidente paquistanês, general Pervez Musharraf, vem tentando conseguir apoio de seus compatriotas para sua decisão pró-Washington, reunindo-se com líderes religiosos e políticos. Ele deve fazer um pronunciamento à nação nesta quarta-feira. Mas ele ainda tem de conquistar o povo, que seria mais afetado por uma guerra.A seção local do Jamiat Ulema Islam, um grande partido político pró-Taleban, realizou uma reunião com cerca de 100 membros em Peshawar nesta terça-feira para pedir ao governo para não participar de um ataque contra o Afeganistão. "A reação do público em geral será extremamente dura" se ocorrer um ataque apoiado pelo Paquistão, disse Abdul Jalil Jan, o vice-diretor da seção local.Membros do partido e muitos outros em Peshawar dizem condenar os ataques terroristas da semana passada, mas afirmam que eles foram promovidos por israelenses para incentivar sentimentos antiislâmicos. Quando perguntado quem ele achava que tinha realizado os atentados, Maulana Abdul Malik, o presidente regional do partido, respondeu calmamente: "Os judeus".Se houver uma guerra contra o Afeganistão, "os dois irão cair - os Estados Unidos e o governo de Musharraf", afirmou Jan. Até a semana passada, o Paquistão era considerado o mais próximo aliado do Taleban. Mas os ataques terroristas nos EUA refizeram as alianças que eram mantidas na região desde meados dos anos 90, afastando o Paquistão do Taleban, e consolidando os laços entre o Paquistão e seu antigo aliado da guerra fria, Washington.Na semana passada o Taleban ameaçou atacar qualquer nação que ajude os EUA a atacarem seu território - uma velada referência ao Paquistão.

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