Paquistaneses hostilizam jornalistas ocidentais

Desde o início dos ataques anglo-americanos ao território afegão, Peshawar, 200 quilômetros a oeste de Islamabad, na direção da fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, é o limite de segurança para jornalistas ocidentais. Daqui não é possível ver - como ocorre em Quetta, mais a oeste - a trajetória noturna dos mísseis da coalizão liderada pelos EUA e da bateria antiaérea do Taleban, mas a guerra pode ser sentida em todas as partes da cidade. O clima é hostil em relação aos ocidentais, em geral, e americanos, em particular. E não só para norte-americanos. O ódio provocado pelos ataques ao Afeganistão não permite à gente simples do local distinguir um brasileiro ou um mexicano de um cidadão dos Estados Unidos. Os modestíssimos hotéis, disputados por repórteres de todas as partes do mundo, são os refúgios mais seguros, e os funcionários recomendam aos hóspedes que não fiquem por muito tempo nas ruas. Protestos esporádicos e fragmentados contra os ataques ao Afeganistão podiam ser vistos hoje em vários pontos de Peshawar. Diante das mesquitas, das madrassas - as escolas de educação islâmica que exercem um importante papel social no Paquistão, mas também são usadas como ferramenta pelo radicalismo muçulmano -, dos campos de refugiados afegãos, manifestantes gritam "morte à América" e queimam bandeiras dos EUA. Nas ruas do centro da cidade, ambulantes vendem camisetas com a imagem de Osama bin Laden, o milionário saudita acusado dos ataques contra o World Trade Center, em Nova York, e o Pentágono, em Washington, em 11 de setembro. As camisetas são vendidas por 150 rupias, o equivalente a US$ 2. Pelas torres das mesquitas, na oração da tarde, os alto-falantes convocam abertamente os muçulmanos à jihad (guerra santa). Para hoje, o maior partido islâmico do Paquistão, o Jamiat-i-Islamiya, promete pôr centenas de milhares de manifestantes nas ruas, em um protesto gigantesco. A multidão deve ser engrossada por boa parte dos refugiados afegãos que vivem nos acampamentos ao redor da cidade. Estimativas exageradas sugerem que eles sejam 2 milhões de pessoas, que vieram para cá fugindo da guerra e da extrema pobreza do Afeganistão. As forças de segurança do Paquistão receberam ordens do presidente paquistanês, Pervez Musharraf, para reprimir atos dos radicais. Nesse contexto, não deve perder dinheiro quem apostar que haverá distúrbios sérios por aqui. A população da cidade é predominantemente pashtun - ou seja, pertence ao mesmo grupo étnico-lingüístico dos talebans. Daí, o apoio incondicional à milícia radical islâmica que controla a maior parte do território afegão. Em Islamabad, onde a população fala urdu, o dialeto que se transformou na língua oficial do Paquistão, esse respaldo ao Taleban não é tão irrestrito. Peshawar - palavra que em pashtun significa mais ou menos "cidade de trabalhadores braçais" - fica no coração do Paquistão, e é um dos centros industriais e agrícolas mais importantes do país. O clima é seco e a poluição, pesada. Segundo seus habitantes, normalmente é mais acolhedora com os estrangeiros do que aquilo que se verifica em tempos de guerra. E alguns ainda se aproximam deles mesmo agora, mas com intenções pouco nobres. "Se você quiser boa diversão, eu consigo; se quiser boa bebida, eu consigo; se quiser boa cocaína, eu consigo", disse um senhor de barbas brancas e compridas, aparentemente bom muçulmano, ao abordar o repórter da Agência Estado - que, inadvertidamente, trajava calça jeans e camiseta que denunciavam a origem ocidental. A situação para estrangeiros é ainda pior em Quetta, a cidade paquistanesa mais próxima da fronteira afegã, onde os protestos antiamericanos já deixaram cinco mortos desde domingo. Jornalistas americanos e europeus que estavam na cidade quando a primeira bateria de bombas e mísseis americanos atingiu o território do Afeganistão tiveram de trancafiar-se em seus hotéis por dois ou três dias, para não serem apedrejados pela multidão enfurecida. Como o aeroporto foi fechado por causa dos ataques, tiveram de enfrentar entre 10 e 18 horas de viagem para voltarem a Islamabad de trem ou de ônibus. "O trabalho para jornalistas em Peshawar está complicado, em Quetta é impossível e atravessar a fronteira para o Afeganistão é loucura", afirmou um guia paquistanês à AE ainda em Islamabad. Leia o especial

Agencia Estado,

11 Outubro 2001 | 13h54

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