Paquistaneses vão às urnas em meio a tensão

Cerca de 80% dos eleitores votaram, apesar da violência; atentados mataram ao menos 24 pessoas no Paquistão

11 de maio de 2013 | 15h12

Adriana Carranca - O Estado de S.Paulo

Apesar das ameaças do Taleban, milhões de paquistaneses foram às urnas neste sábado, 11, em uma eleição histórica para o Paquistão, a primeira em que um governo civil transfere o poder a outro desde a independência do país, em 1947. Pelo menos 24 pessoas morreram em atentados. Segundo informações preliminares da comissão eleitoral, o comparecimento às urnas pode ter chegado a 80% dos eleitores – em 2008, 44% foram votaram.

Uma contagem parcial dos votos mostrou que a Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz, do ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif – que foi eleito deputado –, obteria 40 dos 272 assentos da Assembleia Nacional em disputa. O resultado obtido pela legenda de Sharif representa um duro golpe ao Partido Popular do Paquistão (PPP), que comandou o país nos últimos anos sob a presidência de Asif Ali Zardari e conquistaria 20 assentos no Parlamento, segundo a apuração inicial.

Em terceiro lugar, logo em seguida ao PPP na contagem, aparecia o Movimento pela Justiça, do ex-jogador de críquete Imran Khan – que se elegeu deputado, segundo a apuração.

Se a insatisfação do eleitorado com as condições de vida no Paquistão se confirmar, a hegemonia das legendas mais poderosas do país – o secular PPP, da ex-premiê Benazir Bhutto e de Zardari, o partido de Sharif pode ser ameaçada.

Pesquisas prévias indicavam que a Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz, apesar de obter a maioria dos votos, não deve conquistar os assentos mínimos necessários para governar sozinho.

A solução seria formar um governo de coalizão entre os três partidos. Isso representaria uma vitória da democracia. No entanto, analistas temem que a fragmentação do poder leve a um vácuo que pode se estender por um período indeterminado até que as legendas cheguem a um consenso sobre a formação do novo governo, o que seria uma ameaça à já frágil estabilidade do Paquistão.

Por outro lado, é a primeira vez que uma terceira via chega com força às urnas. Em seu último comício, na noite da quinta-feira, 9, Khan reuniu 35 mil pessoas em Islamabad, sem que ele estivesse presente. Internado desde terça-feira, 7,após cair de um palanque, ele falou ao público da cama do hospital, com imagens transmitidas ao vivo de um telão.

“Foi maravilhoso! Estavam todos muito animados e confiantes. As pessoas vestiram as cores do partido e levaram bandeiras. Foi lindo”, disse a brasileira Cristina von Sprling Afridi, dona de um restaurante em Islamabad, onde vive há 15 anos. Ela é casada com o diplomata paquistanês Tariq Khan Afridi, com quem tem o filho Karim, de 18 anos. “Aqui em casa, todos votam em Imran Khan.”

Dúvida. Com influência até havia pouco tempo periférica, o ex-jogador de críquete conseguiu se firmar nestas eleições como uma alternativa ao establishment. Khan nunca esteve no governo ou se envolveu em escândalos políticos, ao contrário de seus opositores. Durante a campanha, subiu o tom contra a corrupção e a falta de acesso à Justiça, problemas que se tornaram endêmicos nos últimos governos. Ao mesmo tempo, manteve um discurso nacionalista e conservador que alegra o eleitorado paquistanês.

“A dúvida é realmente sobre o potencial de Khan nas urnas, pois ele é, ao mesmo tempo, o candidato da mudança, com apelo entre os jovens, e um conservador. E não sabemos ainda como se comportaram os novos eleitores”, afirmou Frederic Grare, do Carnegie Endowment for International Peace. Pelo menos 40 milhões de paquistaneses – quase a metade dos eleitores – iriam às urnas pela primeira vez nessas eleições.

Mesmo que não conquiste assentos suficientes para estar no governo – ou não aceite formar alianças, como afirma –, Khan poderá liderar uma oposição forte, o que seria inédito no Paquistão. Os tradicionais partidos políticos se revezam no governo desde a independência do país – exceto nos regimes militares, que tomaram o poder em três golpes. / COM REUTERS

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