Paquistão ataca suposto campo de treinamento da Al-Qaeda

Soldados paquistaneses apoiados por helicópteros de combate desencadearam nesta segunda-feira uma ampla operação contra supostos rebeldes, provocando a morte de 80 pessoas e destruindo um local apontado como uma instalação de treinamento de militantes da rede extremista Al-Qaeda, informou o Exército do Paquistão.Entretanto, líderes locais e testemunhas disseram que todos os mortos no ataque eram alunos e professores de uma madraça em Chingai, uma aldeia do distrito de Bajur. As madraças são escolas - desde o ensino básico até o superior - nas quais as aulas são divididas entre o ensino do Alcorão e o currículo regular. As madraças do Paquistão foram o berço do movimento Taleban, que partiram para o Afeganistão no início dos anos 90 com o apoio velado do serviço de inteligência paquistanês.A ação militar desencadeou protestos em Chingai, Khar e outras cidades de Bajur. Líderes tribais e políticos da região denunciaram que o Exército do Paquistão, aliado dos Estados Unidos, matou apenas civis inocentes, e não "terroristas".Caso o número de vítimas da operação esteja correto, o ataque contra o distrito de Bajur, perto da fronteira com o Afeganistão será a mais mortífera operação já promovida pelo Exército paquistanês contra supostos militantes islâmicos.A tensão ameaçava tirar dos trilhos os esforços de paz entre o governo e os líderes das áreas tribais autônomas do Paquistão, onde há ampla atividade de militantes contrários às forças paquistanesas e de rebeldes que lutam contra soldados americanos no Afeganistão e infiltram-se pela montanhosa região de fronteira.Em Islamabad, Qazi Hussein Ahmed, um influente líder religioso e político paquistanês, qualificou como "lixo" a alegação de que a madraça seria um "centro de treinamento de terroristas" e informou que 30 crianças estão entre os mortos.Ahmed convocou os paquistaneses para protestos por todo o país na terça-feira para denunciar o governo paquistanês e sua aliança com os Estados Unidos.Helicópteros dispararam de quatro a cinco mísseis contra a madraça, no interior da qual havia dezenas de pessoas, disse o general Shaukat Sultan, porta-voz do Exército paquistanês.As explosões destruíram o edifício e tudo o que se encontrava em seu interior, espalhando pedaços de corpos, sangue e destroços por uma ampla área.De acordo com Sultan, estimativas iniciais feitas pelos serviços secretos indicam que cerca de 80 supostos militantes paquistaneses e estrangeiros teriam morrido no ataque.Não foi possível verificar a alegação junto a fontes independentes. Acredita-se que apenas três pessoas tenham sobrevivido ao ataque. Os sobreviventes seriam três jovens socorridos com ferimentos graves num hospital local, disse um médico."Esses militantes estavam envolvidos em ações dentro do Paquistão e provavelmente no Afeganistão também", acusou Sultan durante conversa com a agência Associated Press.Segundo ele, a madraça era usada como fachada para treinar rebeldes e o ataque foi desencadeado depois de os encarregados da escola religiosa terem se recusado a atender aos alertas emitidos pelo Exército nas últimas semanas para que fechassem a instituição.Horas depois do ataque, milhares de pessoas em luto compareceram a três funerais em massa realizados em um campo aberto nas proximidades da madraça.Antes do sepultamento, os restos mortais de pelo menos 50 pessoas repousavam em macas colocadas lado a lado e cobertas com lençóis brancos. Os moradores paravam ao lado das macas e oravam pelos mortos.Uma contagem exata das vítimas parecia difícil porque havia muitas partes de corpos mutilados e algumas macas continham dois ou três cadáveres.Nos destroços da madraça, dezenas de pessoas procuravam pelos restos mortais de mais 30 pessoas. Pedaços de corpos eram colocados em sacos plásticos normalmente utilizados para armazenar fertilizantes.Em Khar, nas proximidades de Chingai, cerca de 2.000 pessoas protestaram contra os presidente do Paquistão, general Pervez Musharraf, e dos Estados Unidos, George W. Bush."Morte a Musharraf! Morte a Bush", entoavam os participantes em sinal de revolta com o bombardeio. Parlamentares locais renunciaram a seus cargos em protesto contra o ataque.

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