Paquistão é assolado por conflitos

Disputas étnicas, religiosas e políticas aumentam instabilidade nessa potência nuclear dominada por militares

John Kifner e David Rohde, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

27 de outubro de 2007 | 00h00

Criado como pátria para os muçulmanos, quando foi separado da Índia predominantemente hindu, no colapso do Império Britânico na Índia, em 1947, o Paquistão foi assolado desde o início pelo caos e pela violência. Não é tanto um Estado-nação, mas mais um conjunto de grupos étnicos, tribos, castas e interesses concorrentes, difícil de administrar.Efetivamente, o retorno, no dia 18, da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto ao país após oito anos de exílio, para formar uma desconfortável coalizão com o autonomeado presidente paquistanês, general Pervez Musharraf, foi produto de uma disputa entre civis e autoridades militares que tem definido a política do país. O pai de Benazir, Zulfiqar Ali Bhutto, foi deposto em um golpe militar em 1977 e enforcado pelo general Muhammad Zia ul-Haq dois anos depois.INTELIGÊNCIA MILITARNa semana passada, a própria Benazir sugeriu que o atentado a bomba contra seu comboio na maior cidade do país, Karachi, que deixou pelo menos 143 mortos, teria raízes no longo e entrelaçado relacionamento dos grupos fundamentalistas islâmicos com o poderoso serviço de inteligência do Exército paquistanês.O serviço de inteligência militar canalizou dinheiro para os mujahedin afegãos que combateram os invasores soviéticos, apoiou os rebeldes separatistas islâmicos da Caxemira e ajudou a criar o Taleban.Apesar de os Estados Unidos considerarem o general Musharraf um aliado crucial em sua guerra contra o terrorismo, avaliações recentes da inteligência indicam que a rede Al-Qaeda tem conseguido se reagrupar nas áreas tribais paquistanesas ao longo da fronteira afegã.Além disso, as preocupações com os campos terroristas e a estabilidade do Paquistão aumentam ainda mais sabendo-se que o país possui armas nucleares.DIVISÕESEsses conflitos têm como pano de fundo outras divisões étnicas e de classe existentes no Paquistão. Cada um dos quatro grupos étnicos principais do país - punjabis, sindis, baluques e pashtuns - tem interesses próprios. Os muçulmanos do Paquistão são, na grande maioria, sunitas. Mas há também os xiitas, que freqüentemente são atacados por fundamentalistas sunitas que os consideram hereges.Existe uma classe média cada vez maior nas cidades. Há alguns meses, foram justamente os paquistaneses de classe média os que mais protestaram contra o general Musharraf pelo afastamento, em março, do presidente da Suprema Corte, Iftikhar Chaudhry.Em julho, numa grande derrota para Musharraf, o juiz - que acabou se transformando em um símbolo da resistência ao presidente paquistanês - acabou sendo restituído no posto pela própria Suprema Corte.Apesar de a classe média estar crescendo, uma parte muito grande dos 165 milhões de habitantes do Paquistão (a população do país é maior que a da Rússia) é desesperadamente pobre.Com um governo central fraco e com freqüência corrupto, grande parte do poder é retida pelo Exército e por uma classe de proprietários de terra feudais extremamente ricos, incluindo a própria Benazir Bhutto.TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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