Paquistão envia tropas à fronteira com a Índia

Transferência de 20 mil soldados da divisa com o Afeganistão para a da Índia leva à pior crise entre os países desde os atentados de Mumbai

AP, NYT E REUTERS, O Estadao de S.Paulo

27 de dezembro de 2008 | 00h00

O Paquistão transferiu ontem cerca de 20 mil soldados de sua fronteira oeste, com o Afeganistão, para a região leste do país, na divisa com a Índia. O deslocamento é o maior sinal de tensão entre os históricos rivais - que já entraram em guerra três vezes e têm armamento nuclear - desde os ataques em Mumbai, há exatamente um mês. Islamabad também cancelou todas as folgas de seus militares.A Índia havia oficialmente culpado militantes paquistaneses pelos recentes atentados, que deixaram mais de 179 mortos, segundo a Reuters, e exigido uma resposta firme contra grupos insurgentes que atuam no Paquistão. Nova Délhi também não descartou a possibilidade de atacar bases do grupo Lashkar-i-Taiba (Exército dos Puros), acusado pelo cerco a Mumbai, no território paquistanês. Apesar de ter condenado formalmente os ataques a Mumbai - reforçando que eles foram conduzidos por agentes "não-estatais" que "poderiam" ter saído de seu território -, Islamabad afirmou que qualquer ação indiana terá uma resposta. O Paquistão, entretanto, garante que não dará o primeiro passo num eventual conflito.Pouco antes de o Paquistão anunciar o deslocamento de tropas, a Índia havia desaconselhado seus cidadãos a viajar ao país vizinho. O pedido de cautela veio depois que a polícia paquistanesa afirmou ter detido "vários" indianos que estariam por trás de um atentado, na quinta-feira, em um bairro nobre de Lahore. Uma pessoa morreu na explosão.MUDANÇA DE FOCOOs 20 mil homens da 14ª Divisão do Exército realocados para a fronteira com a Índia estavam posicionados antes na área tribal do Paquistão - conhecida por abrigar um alto número de militantes do Taleban e da Al-Qaeda e onde poderia estar escondido o terrorista saudita Osama bin Laden. Os insurgentes da região atuam também no Afeganistão, contra as forças da coalizão liderada pelos EUA.Apesar de manter cerca de 100 mil soldados em sua área tribal, o Paquistão foi incapaz de reduzir os ataques de grupos fundamentalistas contra forças ocidentais e seus próprios soldados.A mudança de foco do governo paquistanês pode minar a estratégia dos EUA, que pressionam Islamabad para centrar suas forças no combate ao terrorismo e não na disputa com a Índia. Segundo uma autoridade militar paquistanesa, porém, "tropas essenciais em número limitado foram retiradas de lugares onde não são conduzidas operações atualmente". A mobilização de tropas do outro lado do país não afetará os esforços contra militantes islâmicos, garante o oficial. Os militares supostamente foram dirigidos às cidades de Kasur, Sialkot e Jhelum, próximo da disputada região da Caxemira.A Casa Branca afirmou estar em contato com suas embaixadas na região e exigiu moderação do Paquistão e da Índia. "Esperamos que os dois lados evitem dar passos que aumentem desnecessariamente a tensão nesse momento já bastante delicado", disse Gordon Johndroe, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA. "Continuamos em contato com os dois países, exortando-os a cooperar nas investigações dos atentados em Mumbai e na luta contra o terrorismo em geral."O chanceler chinês, Yang Jiechi, que nos últimos dois dias esteve com líderes da Índia e do Paquistão, também pediu moderação para evitar um aumento da tensão entre os dois vizinhos nucleares. Em comunicado, Yang afirmou que os dois lados têm a obrigação de dialogar para garantir a segurança no sul da Ásia.MEMÓRIA DE BENAZIRDezenas de milhares de manifestantes reuniram-se ontem diante da lápide da ex-primeira-ministra do Paquistão Benazir Bhutto. Hoje, completa um ano que Benazir foi assassinada em um comício na cidade de Rawalpindi, dois meses após regressar do exílio.Segundo um porta-voz do Partido do Povo Paquistanês (PPP), antes liderado por Benazir e hoje comandado pelo marido dela, o primeiro-ministro Asif Ali Zardari, 35 mil pessoas prestaram homenagens ontem em seu mausoléu, na cidade de Garhi Juda Bajsh. O número total de visitantes, porém, poderia chegar a "centenas de milhares".

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