Paquistão já tem mais de 1 milhão de refugiados

ONU se mobiliza para ajudar civis que fogem de combates no interior

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

A ONU alertou ontem que os confrontos entre o Exército paquistanês e os rebeldes do Taleban na região do Vale do Swat já causaram o êxodo de mais de 1 milhão de pessoas. A entidade tem planos para instalar inúmeros campos de refugiados para tentar lidar com a crescente crise humana.Além dos 500 mil deslocados nos últimos dias, a ONU informou que outros 550 mil já tinham sido forçados a se retirar de suas cidades nos meses que se seguiram a agosto de 2008, quando foram registrados os primeiros choques.Algumas famílias têm sido obrigadas a usar a renda de vários meses de trabalho apenas para alugar carros e caminhões de mudança para sair de suas regiões e chegar aos campos de refugiados.Na quinta-feira, o governo paquistanês declarou o fim de um precário acordo de paz com o Taleban - pelo qual a milícia islâmica e os chefes tribais da região foram autorizados a estabelecer a Sharia, a estrita lei islâmica, na região do Vale do Swat. No mesmo dia - enquanto o presidente paquistanês, Asif Ali Zardari, mantinha encontros com funcionários graduados do governo do presidente americano, Barack Obama, em Washington -, Islamabad ordenou o ataque aos insurgentes. A ofensiva militar foi anunciada com o objetivo de retomar as posições ocupadas pelo Taleban no Vale do Swat. A região, incrustada nas semiautônomas áreas tribais paquistanesas, faz fronteira com o Afeganistão."Estamos vendo um deslocamento maciço de pessoas por causa dos conflitos", afirmou Ron Redmond, porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. Cerca de 200 mil pessoas já estariam em locais seguros. Mas outras 300 mil ainda estão em movimento e não encontraram refúgio.Segundo Redmond, os conflitos estão se espalhando, o que indicaria que um número maior de paquistaneses ainda pode ser afetado. A grande maioria dos refugiados encontrou refúgio em casa de parentes e alugando quartos.Mas 93 mil já estavam em 11 campos de refugiados mantidos pelas agências da ONU, antes mesmo da chegada dos novos deslocados."Os novos movimentos de pessoas vão causar uma pressão enorme sobre os recursos", afirmou Redmond. Segundo ele, o número de pessoas em busca de ajuda está aumentando de forma rápida. Já as estradas que ligam o norte às regiões atingidas estão repletas de veículos que transportam pessoas que fogem da zona de conflito. O percurso que levaria duas horas está agora levando o dobro do tempo para ser percorrido. Outro problema é o valor cobrado pelos donos de carros para levar famílias para regiões seguras.Uma das famílias que chegou a um campo de refugiados da ONU revelou que o moradores de Buner estão pagando o equivalente a US$ 350,00 pela viagem - três meses do salário médio da região. "A maioria das pessoas chega apenas com a roupa do corpo", disse Redmond.As grandes cidades paquistanesas também estão recebendo refugiados. Islamabad, Rawalpindi e Lahore receberam em apenas duas semanas 40 mil refugiados, principalmente de Bajaur, Mohmand e Swat.A ONU já estabeleceu três novos campos de refugiados na região em apenas duas semanas. O último foi o de Mardan, há uma semana. A entidade ainda está em busca de novas áreas para a construção de outros campos. Os 12 centros para registro de refugiados já não são suficientes e o plano é de estabelecer outros 75 pelo país. A ONU ainda enviará equipamentos para um total de 300 mil pessoas.ACORDO ROMPIDO Fevereiro - Num acordo criticado pelos Estados Unidos, presidente paquistanês aceita cessar-fogo com o Taleban e permite aplicação da lei islâmica (Sharia) no Vale do Swat Março - Juízes especializados na Sharia começam a revisar sentenças de moradores Abril - Vídeo mostra mulher afegã sendo punida com 24 chicotadas por militantes taleban. Insurgentes estendem presença para distritos vizinhos. No mesmo mês, Exército afegão inicia ofensiva militar Maio - Diante do avanço taleban sobre zonas tribais do Vale do Swat, forças afegãs intensificam ataques aéreos e envio de tropas. Combates provocam a fuga de 1 milhão de civis, segundo a ONU

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