Danish Siddiqui/Reuters
Danish Siddiqui/Reuters

''Paquistão não pode ser arma dos EUA''

Para ex-ídolo do críquete, que pretende ser premiê do país, Islamabad não pode depender do dinheiro de Washington

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2011 | 00h00

ENVIADA ESPECIAL / ISLAMABAD

Imran Khan, líder do partido de oposição paquistanês Tehreek-e-Insaf

"Já perdemos U$ 68 bilhões e 34 mil vidas desde 2004 em uma guerra que não é nossa. O Paquistão não foi atingido nos ataques do 11 de Setembro, não convidou a Al-Qaeda nem criou o Taleban", diz Imran Khan, ex-ídolo do críquete que se tornou o político mais popular entre os jovens do país.

Khan é divorciado da socialite britânica Jemima Goldsmith, com quem tem dois filhos. Quando vivia em Londres, frequentava festas e figurava nas colunas sociais. Embora circule bem entre os religiosos radicais do Paquistão, está longe do estereótipo muçulmano conservador. Aposentado da carreira como jogador, Khan voltou ao Paquistão e fundou o partido de oposição Tehreek-e-Insaf (Movimento por Justiça). Construiu sua carreira política sobre bandeiras como o fim da guerra e das relações com os EUA.

Ele promete parar Karachi, a maior cidade do Paquistão, nos dias 21 e 22, em protesto contra os bombardeios americanos nas zonas tribais da fronteira com o Afeganistão e pelas renúncias do premiê Yousuf Raza Gilani e do presidente Asif Ali Zardari, por causa da operação que matou Osama bin Laden. Khan recebeu o Estado na mansão onde vive em Islamabad.

Quais suas bandeiras?

Você está olhando para o próximo primeiro-ministro (do Paquistão). Vou parar com essa guerra. Vou dizer aos EUA que não quero nenhuma interferência no Paquistão; não queremos seu dinheiro. Seremos seus amigos e vamos garantir que não haja terrorismo em nosso país, mas vamos fazer isso à nossa maneira. Não queremos bases americanas aqui.

Qual é a sua posição sobre religião e regimes teocráticos?

Jamais poderá haver um regime secular no Paquistão. Isso nunca será possível porque nossa Constituição diz que nenhuma lei contra o Alcorão pode ser aprovada.

Democracia e Islã podem andar juntos?

Claro que podem! Por 700 anos o Islã dominou o mundo - e sempre tivemos governos seculares, de certa maneira. Mas a forma como eu percebo o secularismo é diferente de como os ocidentais o veem. Na história do Islã nunca houve teocracia, exceto por dois governos: Irã e Taleban, no Afeganistão. E isso só aconteceu por razões muito específicas. No Irã, porque o xá Reza Pahlevi eliminou toda a oposição democrática. No Afeganistão, os senhores de guerra eram fundamentalistas e estavam destruindo seu país (na guerra civil ocorrida depois que os soviéticos se retiraram).

Um cristão poderia ser premiê do Paquistão?

Pode um muçulmano ser presidente dos EUA? Você viu como Barack Obama foi atacado e teve de se defender e provar que era cristão? Pode um muçulmano ser primeiro-ministro da Grã-Bretanha, ou presidente da França? Isso é sem sentido. A maioria sempre domina.

Você tem apoio dos jovens, mas acha que pode conquistar as alas mais tradicionais da sociedade?

Nós temos três vezes mais votos nas zonas tribais do que qualquer outro partido. Vamos vencer as próximas eleições!

Qual sua opinião sobre a crise após a operação que matou Osama bin Laden?

Nós paquistaneses nunca nos sentimos tão humilhados, por todas as mentiras em torno dessa guerra contra o terror. Não sabemos no que acreditar. Os americanos mentiram dizendo que essa era a nossa guerra. Essa nunca foi a nossa guerra. O Paquistão não foi atingido nos ataques de 11 de Setembro; não havia a Al-Qaeda nem o Taleban aqui.

O governo sabia da presença de Bin Laden no Paquistão?

Não importa. Esqueça Bin Laden. O que importa é que o governo do Paquistão perdeu toda a credibilidade interna e externa, e nos colocou em risco.

Como sair dessa situação?

Temos de mudar nossa estratégia, nossa política externa ou o Paquistão irá de mal a pior. Temos de sair dessa guerra. Temos de parar de pegar dinheiro dos EUA. Nós não podemos ser uma arma alugada dos EUA.

QUEM É

Ex-jogador de críquete, o paquistanês Imran Khan fundou o partido de oposição Tehreek-e-Insaf ao encerrar a carreira no esporte. A política anti-EUA do ex-ídolo tornou-o uma das personalidades mais cotadas para se eleger o novo premiê do Paquistão, principalmente entre os jovens. Mesmo não se enquadrando no estereótipo do muçulmano tradicional, Khan diz ter alta aprovação nas regiões tribais do país.

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