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Paquistão prepara eleição em meio a onda de violência

Pela primeira vez, governo democrático será transferido a outro em eleições diretas, mas atentados que já mataram 70 são ameaça

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h07

O Paquistão se prepara para ir às urnas no sábado em uma disputa história. Será a primeira vez que um governo democrático termina o mandato e transfere o poder para outro em eleições diretas - o país sofreu três golpes militares desde a independência em 1947. O otimismo, porém, foi arruinado por uma onda de violência que já soma 43 atentados contra candidatos e partidários, com mais de 70 mortos no último mês.

A responsabilidade pela maioria dos atentados foi assumida por grupos extremistas islâmicos, principalmente o Tarik-i-Taliban, o Taleban paquistanês - conhecido por ataques como a tentativa de assassinato da jovem Malala Youzafsai, de 14 anos, por defender a educação de meninas. O principal alvo dos últimos atentados são candidatos, integrantes e militantes dos partidos seculares que concorrem às eleições no dia 11.

"Esta é a mais sangrenta disputa eleitoral da história do Paquistão", disse ao Estado o paquistanês Pir Zubair Shah, do Conselho de Relações Internacionais. "Não tenho certeza se podemos chamar isso de eleições livres, uma vez que os extremistas estão matando e alarmando todos os candidatos dos partidos seculares. Ficará o establishment."

Por establishment, Khan se refere aos militares, a mais poderosa instituição do país. "Todos supomos que o ISI (agência de inteligência paquistanesa) está por trás da onda de violência", diz o diretor do Carnegie Endowment for International Peace para o Sul da Ásia, Frederic Gares, especialista em segurança e democratização no Paquistão, Índia e Afeganistão.

Sob a mão forte dos militares estão duas áreas cruciais: política externa e segurança. "A violência atual evidencia que o Paquistão não é sincero na relação com os EUA e segue com o jogo duplo de sempre: alimenta os extremistas enquanto recebe bilhões de dólares para combatê-los", acredita Khan. O dinheiro dos EUA - incluindo US$ 1,5 bilhão ao ano em ajuda humanitária - é canalizado pelos militares.

Os grupos extremistas, que crescem livres nas áreas tribais, Khan diz, servem como um "muro de proteção" às instalações nucleares do Paquistão, que os militares acreditam estar por trás da intenção dos EUA em manter sua presença no Afeganistão após 2014; além disso, são uma força contra qualquer ameaça da Índia e sua influência no país vizinho. "Os militares paquistaneses se julgam cercados pelos inimigos (EUA, Índia)", completa Khan.

Esse status não deve mudar com as eleições. Mas a insatisfação dos eleitores com a situação atual - a corrupção endêmica, uma economia agonizante e a insegurança que tira vidas e espanta os investimentos estrangeiros no país - podem trazer mudanças no governo civil.

O Partido Popular do Paquistão, legenda da ex-premiê Benazir Bhutto e do presidente Asif Ali Zardari, que governou até o fim do mandato em março - uma administração interina assumiu até as eleições -, continua sendo a maior força política do país, seguida pelo principal opositor, Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz, do ex-premiê Nawaz Sharif. Mas os analistas acreditam que nenhum dos dois partidos ocupará os 172 assentos mínimos necessários - de 272 - para garantir a maioria no Parlamento.

Tudo indica, pelo menos até agora, que o Paquistão caminha para um governo de coalizão.

Uma terceira força, relativamente nova, é o Movimento pela Justiça, partido fundado pelo ex-jogador de críquete Imran Khan. Ídolo do esporte, fotografado no passado em festas regadas a álcool e divorciado da socialite britânica Jemima Marcelle, com quem tem dois filhos, Khan tinha grande rejeição entre os eleitores paquistaneses, mas adotou um discurso conservador, nacionalista e antiamericano - especialmente em relação à permissão pelo governo do Paquistão às investidas dos EUA com drones em território paquistanês, ao que a população se opõem - e acabou por conseguir atrair os eleitores insatisfeitos, principalmente os jovens. É o mais popular entre os partidos no Facebook.

Dos 84,4 milhões de eleitores esperados nas urnas, 50% têm menos de 35 anos. Pelo menos 40 milhões votarão pela primeira vez. A participação dos jovens nessas eleições, catapultada por maior acesso à informação via internet, é vista como uma ameaça real à hegemonia dos partidos que dominam a política no Paquistão.

"Nós queremos mudança. Imran parece ser uma pessoa melhor ou, pelo menos, diferente", disse ao Estado Shakeel Awan, de 25 anos, que trabalha para uma emissora de TV estatal em Peshawar, conhecida como berço do Taleban e a capital administrativa da antiga Província da Fronteira Noroeste e da Federação das Áreas Tribais. "O que precisamos é de educação, emprego, oportunidades, prosperidade. Os últimos governos não trouxeram nada disso." Se o próximo o fará é incerto.

Mesmo afastados do governo - o general Pervez Musharraf, que tomou o poder em um golpe e governou por quase uma década foi impedido pela Justiça de ocupar cargo público e está em prisão domiciliar por envolvimento no assassinato de Benazir, num atentado a bomba, em 2007 -, no entanto, os militares seguirão no poder. "Eles não precisam de Musharraf, não precisam estar no governo, porque eles têm o governo em suas mãos", resume Shah.

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