Paquistão promete cooperar com EUA contra o terrorismo

O presidente do Paquistão, general Pervez Mucharraf, prometeu uma cooperação "sem limites? com os Estados Unidos para lutar contra o terrorismo. "O terrorismo é um mal que ameaça a comunidade mundial", disse Mucharraf, atendendo a um pedido firme do Secretário de Estado americano, Colin Powell.Divertido e mesmo risível. A ameaça terrorista em questão é a que se atribui, provavelmente com razão, ao milionário ex-saudita Osama bin Laden, que é "hóspede", protegido do governo "integrista" - o mais terrível e o mais obtuso do mundo - do Taleban do Afeganistão. O pedido era, portanto, fazer com que bin Laden fosse extraditado.O que torna esse diálogo entre americanos e paquistaneses estranho é que a milícia Taleban, que protege bin Laden, foi instalada no poder em Cabul, no Afeganistão, justamente pelos esforços conjugados dos Estados Unidos e de seu aliado paquistanês.Em outras palavras, assistimos a esta cena surrealista: um dos "padrinhos" do Taleban, o "padrinho" americano, pede ao outro "padrinho", "o padrinho" paquistanês, para extraditar o "protegido" do Taleban que, juntos, eles instalaram no Afeganistão.Para piorar esse imbróglio, esse bin Laden, suspeito de ter massacrado 10.000 nova-iorquinos, e que os Estados Unidos procuram prender com a ajuda do Afeganistão foi também, como o próprio Taleban, treinado pelos americanos.É difícil, muito difícil, ser a primeira nação do mundo! A gente pisa na bola, não consegue entender. Principalmente, esses orientais! É mesmo muito complicado!Deixemos as brincadeiras de lado: a promessa feita pelo presidente paquistanês Mucharraf pode se concretizar? Ou trata-se apenas de uma manobra de Mucharraf para evitar as represálias - provavelmente brutais, proporcionais ao abalo causado - que os Estados Unidos podem praticar contra o Afeganistão?Para entender essa confusão toda, é preciso recuar no tempo. Dezembro de 1979, os soviéticos invadem o Afeganistão. Os americanos não querem intervir, mas apóiam a resistência afegã. De que maneira? Dando ao Paquistão bilhões de dólares para serem repassados aos resistentes afegãos. E o Paquistão, país muçulmano integrista, dá evidentemente esse maná às facções afegãs (sunitas) mais extremistas.Foi assim que os americanos financiaram, por intermédio do Paquistão, o pior dos resistentes afegãos, o caudilho Gulbuddin Hekmatyar, promovido a "herói da liberdade" pelos americanos.Infelizmente, o "herói da liberdade" é um "terror". Assassina jornalistas estrangeiros, humanitários, afegãos moderados. Detesta o Ocidente. A CIA sabe disso, mas continua a apoiá-lo: a obsessão anticomunista dos americanos é tão exacerbada que eles aceitam, para atingir a URSS, aliar-se com o "diabo". Entre os "resistentes" iluminados contratados pela CIA a mando de Hekmaytar, havia um moço muito rico, muito corajoso e muito inteligente. Osama bin Laden.A URSS desabou e deixou o Afeganistão. As redes islamitas não depõem as armas. Tornam-se mais poderosas. Washington não vê nenhum inconveniente nisso pois, por "razões petroleiras", Washington prefere o Afeganistão ao Irã, que na época estava em pleno integrismo, embora xiita e não sunita.No Afeganistão, o comandante Massud se apodera da capital Cabul, mas é mal visto pelos integristas. Por quê? Porque o Paquistão detesta o comandante Massud, que cometeu o crime de pertencer à etnia Tadjik, inimigos hereditários do Paquistão. E o Afeganistão mergulha na anarquia. Proliferam as bombas, os atentados ...Estamos em 1993. Os americanos estão preocupados. Compreendem que seu protegido, Gulbuddin Hekmatyar, não era a escolha certa. Nesse momento, o Paquistão, que está repleto de integristas - sobretudo nos altos círculos militares -, sugere a Washington uma idéia maravilhosa: apoiar um novo movimento, o do Taleban (estudantes corânicos), que vai colocar ordem no Afeganistão.A idéia do Paquistão era boa: de fato, o Taleban, esse grupo de jovens "pashtuns", formados nas escolas corânicas do Paquistão (as madrassa), precipitam-se sobre o Afeganistão e chegam a Cabul. A colocação do Taleban em órbita dá-se em 21 de setembro de 1994, em presença do embaixador americano no Paquistão.Assim, bastaram alguns anos para que os Estados Unidos dessem corpo e rosto ao sonho dos militares extremistas do Paquistão: implantar no Afeganistão um poder bem pior que o dos mulás do Irã, ferozmente antiocidental, antiamericano, anticristão e, podemos dizer, anti-humanista.Para completar, os americanos obtiveram que, na esteira do Taleban, o milionário ex-saudita, bin Laden, fosse hospedado, protegido pelo Taleban, instalado em montanhas inatingíveis, e que pudesse assim recrutar uma enorme "legião estrangeira" de fanáticos islamistas ("islamista" não deve ser confundido com "árabe", nem com "muçulmano"), os "afghantsy", ou seja, cinco mil voluntários vindos de todas as partes do mundo, chechenos, argelinos, egípcios, sudaneses, paquistaneses, etc.Esses guerreiros mandam e desmandam em Cabul. Atemorizam os raros ocidentais que lá se encontravam e os próprios afegãos. Ricos, todo poderosos, bem treinados, cruéis com as mulheres, prontos ao sacrifício supremo, compõem um exército sinistro que bin Laden tem à sua disposição.E aí? O Paquistão vai cumprir a promessa que acaba de fazer aos Estados Unidos, e fazer pressão sobre seus clientes afegãos para que esses extraditem bin Laden? (certamente com auxílios financeiros apreciáveis ...)Duas observações. A primeira é que o Taleban, muito angustiado com a idéia de eventuais apocalipses americanos, prometer refletir sobre uma eventual extradição de bin Laden, mas, dizem eles, "com a condição de que a responsabilidade de bin Laden nos atentados de Nova York seja provada".Ora, as provas exigidas pelo Taleban são difíceis de reunir, pois não são as que vigoram no direito internacional, mas as da lei islâmica.Por outro lado, mesmo que os dirigentes paquistaneses tenham realmente vontade de fazer pressão sobre Cabul, têm de contar com as fortíssimas minorias extremistas islamistas que grassam no Paquistão e detêm, entre outras coisas, toda a instituição militar.Não podemos esquecer que são "integristas" paquistaneses que realizam uma "djihad" (guerra santa) na Índia, na Caxemira, e que essa ação na Caxemira é apoiada precisamente pelo alto comando militar paquistanês, e particularmente pelo ISDI (serviços secretos).E por fim, última observação: admitamos que os paquistaneses exijam que o Taleban extradite bin Laden. Admitamos que o Taleban obedeça a essa ordem e entregue bin Laden. Mas bin Laden não está sozinho. Ele é o inspirador, o personagem carismático da guerra santa movida contra o Ocidente, contra o Satã americano, mas treinou discípulos. Cinco mil "soldados" provenientes de toda a constelação integrista, bem treinados, determinados e, às vezes, dotados de alto nível tecnológico e intelectual, estão de prontidão. Além disso, a organização de bin Laden é extremamente flexível. Ela não é centralizada: trata-se de uma nebulosa de grupos federados, com dez cabeças, cem cabeças, e pode-se temer, infelizmente, que a captura de bin Laden só perturbaria momentaneamente sua atividade e sua temível eficácia.

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