Paquistão promete retaliar ações da Otan

Pressionado por não reagir a ataque que matou 24 soldados, Exército diz que responderá a futuros bombardeios quaisquer que sejam as consequências

ISLAMABAD, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2011 | 03h03

O Exército do Paquistão anunciou ontem que vai revidar qualquer ataque da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a seu território. O anúncio foi feito após um ataque de helicópteros da aliança à zona fronteiriça entre o país e o Afeganistão, no sábado, deixar 24 soldados paquistaneses mortos.

Sob pressão por não ter revidado ao bombardeio de duas horas, o comandante das Forças Armadas paquistanesas, general Ashfaq Kayani, enviou uma carta a seus subalternos com a nova determinação, que deve tornar ainda mais tensas as relações do país com seus aliados ocidentais, enfraquecidas desde a operação especial americana que matou o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, em território paquistanês, em maio.

"Quero enfatizar e não deixar ambiguidades: sob ataque, vocês têm toda liberdade de ação para reagir", escreveu o comandante, segundo o jornal britânico The Guardian. "Qualquer ato de agressão será respondido com toda força, independentemente dos custos e consequências."

Segundo a ministra da Informação, Firdous Awan, a decisão de Kayani teve respaldo do governo. Em reunião com o Conselho de Segurança Nacional, o premiê Yussuf Raza Gilani obteve apoio unânime de seu gabinete.

O ataque ocorreu entre a província afegã de Kunar e a área tribal paquistanesa de Mohmand. O posto fronteiriço bombardeado pela Otan fica 300 metros dentro do território paquistanês. Segundo Islamabad, a aliança atlântica prosseguiu com a ação mesmo depois de ter sido alertada.

Fontes do Pentágono alegaram que o bombardeio foi uma resposta a ataques de militantes islâmicos. Os oficiais paquistaneses, no entanto, acusaram a Otan de premeditar a ofensiva e ter dado as coordenadas erradas de onde ocorreria a ação. Além disso, os militares ocidentais não teriam esperado a autorização paquistanesa para agir.

Os EUA e a Otan iniciaram investigações sobre o episódio. O governo americano não se retratou publicamente pelo ocorrido. Segundo o Pentágono, primeiro é necessário esperar as conclusões do painel que analisará o incidente. Segundo oficiais americanos que trabalham na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, houve um pedido informal de desculpas.

Em retaliação ao incidente, o Paquistão bloqueou a passagem de suprimentos para tropas da Otan por seu território, proibiu os americanos de utilizar uma base aérea em seu território e cancelou a participação em uma cúpula sobre o Afeganistão em Bonn, na Alemanha, na próxima semana.

Protestos. Ontem, milhares de manifestantes tomaram as ruas paquistanesas para protestar contra o ataque. A multidão, formada em sua maioria por militantes islâmicos, pediu ao Exército que ataque as bases dos EUA no Afeganistão.

Em Karachi, o grupo extremista sunita Sipah-e-Sahaba, ligado à Al-Qaeda, liderou um protesto de 2 mil pessoas. O líder da organização, Aurangezeb Farooqi, incitou os seguidores a entrar para o Exército para combater os EUA. O grupo foi proscrito no Paquistão, mas sua atuação é tolerada. Em resposta, os manifestantes gritaram: "Deus é o maior! O único tratamento para a América é a jihad".

Washington aposta na cooperação de Islamabad para negociar uma trégua com líderes insurgentes afegãos abrigados em território paquistanês. Os EUA pretendem concluir a retirada de suas tropas do Afeganistão até o final de 2014. Mas as relações bilaterais estão cada vez mais desgastadas. / AP

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