REUTERS/Jonathan Ernst
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Para a China, Trump continua a ser uma dádiva

Os EUA precisam descobrir como enfrentar a ascensão dos chineses; mas, neste momento, os americanos estão se retirando do campo

Fareed Zakaria / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2018 | 05h00

O falecido Lee Kuan Yew me disse que os EUA continuarão a potência dominante no mundo somente se forem dominantes no Pacífico. Lee fundou a moderna Cingapura e foi um dos estrategistas mais inteligentes que conheci. Ele me falou sobre isso no final de sua vida, preocupado com o colapso da estabilidade que havia permitido o crescimento global nos últimos 50 anos. Infelizmente, Donald Trump parece estar fazendo tudo o que pode para contrariar essa afirmação.

E a mídia entendeu errado. A real manchete da cúpula de Trump e Kim Jong-un deveria ser esta: “Os EUA enfraquecem sua aliança de 70 anos com a Coreia do Sul”. Os elementos mais surpreendentes da iniciativa de Trump não foram os elogios feitos ao ditador norte-coreano, mas seu anúncio do cancelamento dos exercícios militares com a Coreia do Sul, adotando a mesma retórica dos norte-coreanos, qualificando os exercícios de “provocativos”.

Na verdade, é a Coreia do Norte que provoca e ameaça a Coreia do Sul, desde que invadiu o Sul pela primeira vez, em 1950. Acredita-se que ela mantenha um milhão de soldados na ativa, quase o dobro da Coreia do Sul, e construiu 20 túneis para organizar uma invasão-surpresa. Além disso, tem mais de 6 mil peças de artilharia que podem atingir o Sul, incluindo algumas cujo alcance é tão grande que 32,5 milhões de pessoas estão em perigo, mais do que a metade da população sul-coreana.

O Departamento da Defesa dos EUA estimou, em 2006, que, se a Coreia do Norte usasse sua artilharia contra o Sul, 250 mil pessoas morreriam apenas em Seul. Naturalmente, uma década depois, o Norte tem 60 bombas nucleares e mísseis para transportá-las.

Os “jogos de guerra” de Coreia do Sul e EUA são um conjunto necessário de exercícios defensivos realizados na presença de um adversário agressivo. Pior ainda, Trump indicou que gostaria de retirar as tropas americanas da Coreia do Sul.

Ele erra ao afirmar que isso vai poupar recursos, salvo se pretende uma desmobilização dessas tropas – o que significaria um corte das forças ativas dos EUA, que é o oposto da política adotada por ele. Como a Coreia do Sul cobre quase a metade dos gastos das tropas americanas estacionadas ali, transferi-las para a Geórgia, por exemplo, não custará menos. Mas isso não vem ao caso.

Foi por meio de uma amarga experiência que os EUA concluíram ser muito melhor ter tropas prontas e treinadas para uma batalha e com conhecimento da geografia local, em vez de mantê-las todas nos EUA e enviá-las quando eclode um conflito.

Alguns comentaristas têm sublinhado que a vitoriosa dessa cúpula foi a grande potência que nem estava presente: a China.

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Eles estão certos. Pense no que a China sempre desejou. Primeiro, a estabilização da Coreia do Norte. Até recentemente, a questão vinha sendo um pesadelo para os chineses, uma vez que a unificação seria levada a cabo segundo as condições da Coreia do Sul, criando um grande Estado democrático, aliado de Washington, abrigando tropas americanas na fronteira da China. O pesadelo parece improvável agora que os EUA prometeram garantias de segurança para a Coreia do Norte, além de ajuda e investimentos.

O segundo grande desejo da China é ficar livre das tropas americanas, especialmente no continente. Trump parece inclinado a isso também. Após o fim da Guerra Fria, muitos países asiáticos ficaram preocupados que os EUA saíssem da Ásia deixando seus aliados à mercê de uma China cada vez mais poderosa.

Para garantir a eles que não, Joseph Nye, alto funcionário do governo Clinton, elaborou um relatório e apresentou uma iniciativa em que os EUA se comprometiam a manter sua presença na Ásia, com 100 mil soldados. Caso Trump siga seu impulso de retirar as tropas da Coreia do Sul, esse número ficaria bem abaixo.

Para a China, Trump continua sendo uma dádiva. Ele iniciou seu mandato abandonando a Parceria Transpacífico, criada por aliados como alternativa ao mercado chinês. A parceria era um escudo contra a China e provou ser atrativa para outros países. Agora, as regras estão sendo ditadas na Ásia e em mandarim. Lee estava certo. Nas próximas décadas, o jogo estratégico dos EUA será como enfrentar a ascensão da China. Mas, agora, os EUA estão saindo de campo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

 

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