Para a difícil paz no Oriente Médio

Governo israelense tem agora razões suficientes para repensar seus pressupostos sobre a unidade palestina

Christa Case Bryant*, The Christian Science Monitor/O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2014 | 02h03

Sete anos depois de as duas principais facções palestinas se separarem violentamente, seus líderes anunciaram, na quarta-feira, um acordo de reconciliação que preparará o terreno para um novo governo de unidade e para as primeiras eleições em oito anos.

Acordos semelhantes, concluídos entre o Fatah e o Hamas, em 2011 e 2012, fracassaram quando foi preciso decidir como os rivais dividiriam o poder.

Entretanto, segundo alguns, talvez o pacto represente um compromisso mais profundo, porque ambas as facções se sentiram forçadas a tentá-lo em razão do descontentamento popular e por pressões externas.

Israel parece estar levando a sério o pacto. Representantes do governo criticaram o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, por considerarem sua decisão uma forma de repúdio a um tratado de paz com Israel, enquanto ambas as partes pretendem estender as conversações além do prazo marcado para a próxima semana.

"Abbas deve decidir se quer fazer a paz e, caso queira, com quem. É impossível fazer a paz com Israel ou com o Hamas, uma organização terrorista que defende a destruição de Israel", disse o chanceler israelense, Avigdor Lieberman. "Assinar um acordo para um governo de união entre Fatah e Hamas equivale a cancelar as negociações entre Israel e Autoridade Palestina."

A estratégia de Israel baseia-se em dois pressupostos: o primeiro é que Abbas, em sua posição de líder também do Fatah, pode implementar um acordo de paz sem reconciliar-se com o Hamas; e o segundo, que o Hamas jamais abriria mão de sua intenção declarada de destruir Israel.

Ambos talvez precisem refletir. Abbas, eleito há oito anos, vem se apresentando como um pacificador fiel ao seu compromisso, que pretende mostrar aos palestinos que é melhor negociar do que recorrer à violência.

Contudo, depois de duas rodadas de negociações, a população israelense que se estabeleceu na Cisjordânia aumentou em mais de 60 mil colonos, ou seja, 22%, e as conversações com Israel não conseguiram oferecer um único benefício significativo ao eleitorado de Abbas.

A legitimidade de Abbas está se reduzindo perigosamente e ele não tem a influência necessária para convencer os palestinos a fazer os sacrifícios necessários para uma paz duradoura. O Hamas poderá sabotar qualquer acordo que ele consiga firmar com Israel, disparando foguetes sobre cidades israelenses, incluindo Tel-Aviv.

O Hamas, acrônimo em árabe para Movimento de Resistência Islâmica, ainda adere à sua carta de fundação, que se declara um elo na longa cadeia de jihad contra a "ocupação sionista". Ela declara que libertar a Palestina é uma obrigação religiosa de todo muçulmano e desistir de alguma parte do território palestino equivaleria a abrir mão da própria fé.

No entanto, a organização evoluiu consideravelmente desde sua fundação, em 1987. Hoje, ela inclui facções muito mais pragmáticas. Embora algumas continuem aderindo ao emprego da violência, outras facções se tornaram mais moderadas, especialmente desde que ganharam as eleições em 2006 e enfrentam o desafio da governança e não apenas a resistência.

Após dois conflitos devastadores com Israel, em 2009 e 2012, o Hamas tentou conter outros grupos militantes que continuavam atacando Israel com foguetes.

E, em 2009 e 2010, os líderes indicaram sua disposição de concordar com um Estado palestino com base nas fronteiras anteriores a 1967 - apenas 22% do território compreendido entre a fronteira com o Líbano, o Rio Jordão, a fronteira com o Egito e o Mar Mediterrâneo.

É possível que, para trazer o Hamas à mesa de negociações, tenha sido fundamental a restrição do Egito aos túneis pelos quais passava o contrabando que contribuiu para alimentar a vida econômica da Faixa de Gaza durante dez anos, deixando o governo do Hamas profundamente carente de recursos. Neste contexto, talvez o Hamas precise do Hamas mais do que o Fatah precisa do Hamas.

*Christa Case Bryant é correspondente em Jerusalém.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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