Para a maioria, o sonho americano acaba em tragédia

Imigrantes enfrentam os perigos da selva, viagens intermináveis, ladrões, sequestradores e policiais corruptos a caminho dos EUA

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

A história dos 72 imigrantes assassinados por traficantes no dia 22 é um drama cada vez mais comum no México. A maioria dos clandestinos que buscam o eldorado americano sai de países da América Central. A via crúcis começa ainda no país de origem. Em Honduras, há relatos de coiotes que abordam os retirantes na fronteira com a Guatemala. Por até US$ 8 mil, eles levam qualquer um do México para os EUA. Com barganha, o pacote todo pode sair por US$ 5 mil.

Para começar a odisseia, é preciso reunir US$ 6 mil, no mínimo - tudo depende da distância que o separa da primeira etapa: a Cidade da Guatemala. Na capital guatemalteca, o imigrante enfrenta a primeira escolha: entrar no México pelos Estados de Chiapas ou Tabasco. Por Chiapas, os perigos são os assaltantes e os estupros. Segundo dados oficiais, 80% das mulheres que escolhem a rota sofrem algum tipo de abuso. A vantagem é ficar mais distante dos matadores do cartel Los Zetas.

Na Guatemala, com um bom contato e US$ 300, é possível comprar um passaporte mexicano e ter uma viagem mais tranquila. Se não, a saída é um coiote. Os Zetas, porém, monopolizaram o negócio. Cada vez mais coiotes pagam uma taxa ao cartel e poucos se arriscam a trabalhar como autônomos. Coiote freelancer, flagrado no ato, paga US$ 10 mil para salvar a pele.

Os ilegais que não podem gastar com coiotes - a grande maioria -, escolhem a "rota maia", pela selva guatemalteca, e entram por Tabasco, área de atuação dos Zetas. Nove horas depois de subir em um ônibus na rodoviária William Guzman, na capital da Guatemala, a primeira escala é a cidade de Flores, às margens do Lago Petén Itzá.

Por US$ 2 é possível encontrar uma espelunca para dormir no local. Dali, uma trilha empoeirada de 160 quilômetros leva a El Naranjo, na fronteira com o México. Cerca de 200 pessoas cortam esse corredor de selva todos os dias. Para muitos, uma viagem sem volta. No caminho, a luta é contra cobras e jaguatiricas. Alguns morrem afogados na travessia de rios ou se perdem no mato. Um bom conselho é carregar pelo menos US$ 5 para os ladrões - ou um pouco mais para escapar da polícia. Cruzando o posto fronteiriço de El Ceibo, começa a fase mexicana da viagem.

Ainda faltam 3 mil quilômetros até os EUA. O trecho até Tenosique é o mais perigoso. Além de assaltantes, a maior ameaça são os sequestradores a serviço do tráfico e os policiais à caça de ilegais para extorquir ou deportar. Todos os anos, o México manda de volta para casa 250 mil imigrantes. O futuro mais sombrio é nas mãos dos Zetas. Segundo Óscar Martínez, jornalista salvadorenho, conhecedor do grupo, o cartel tem dificuldade na compra da cocaína. A deficiência fez com que eles diversificassem sua receita e apostassem no trafico de madeira, de mulheres, filmes piratas e sequestros.

"O resgate não pode ser muito alto, então, pedem de US$ 1,5 mil a US$ 5 mil a parentes nos EUA ou no país de origem", disse Martínez. "Mas só são sequestrados os que tentam passar com coiotes autônomos ou sem coiotes." Um estudo recente calcula que o cartel fature US$ 25 milhões ao ano com a prática. Quem não paga tem duas opções: trabalhar para o tráfico ou a morte.

Fim de linha. Em Tenosique, os imigrantes embarcam em um trem de carga até Coatzalcoalcos. Eles viajam três dias no teto, se apertam entre os vagões ou vão pendurados nas portas. O índice de acidentes é alto. Muitos dormem, caem e são atropelados. Com sorte sobrevivem, mas perdem um pé ou uma perna.

Em Coatzalcoalcos, à beira da ferrovia, eles pernoitam à espera de outro trem para o norte. Em Tierra Blanca, região central, os caminhos de Chiapas e Tabasco se encontram. Agora, eles optam entre a rota atlântica, para cruzar a fronteira com o Texas, em Matamoros ou Reynosa, ou seguem para a Cidade do México, de onde irão para Tijuana ou Ciudad Juárez. A escolha varia de acordo com a preferência ou contatos dos coiotes.

A poucos quilômetros dos EUA, mesmo os que chegaram por conta própria precisam de uma ajuda para o passo final. Os coiotes de fronteira cobram de US$ 1,2 mil a US$ 3,5 mil para cumprir a última etapa. Um a cada cinco consegue chegar em território americano e cerca de 70% das mulheres são estupradas no caminho - muitas, mais de um vez.

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