Andreas Gebert/Reuters
Andreas Gebert/Reuters

Para agências de saúde, 'nacionalismo da vacina' ameaça prejudicar países mais pobres

Agências globais que planejam um esquema de compra em massa e de distribuição igualitária de vacinas em todo o mundo temem que a 'lei do mais forte' passe a imperar

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2020 | 19h46

LONDRES/CHICAGO - No mundo das vacinas contra a covid-19, a lei do mais forte impera. Esse é o temor de agências de saúde globais que planejam um esquema de compra em massa e de distribuição igualitária de vacinas em todo o mundo.

Elas informaram nesta quarta-feira, 29, estar observando com consternação como alguns países mais ricos decidiram agir por conta própria, firmando acordos com farmacêuticas para garantir milhões de doses de candidatas a vacinas promissoras para seus cidadãos.

Os acordos, incluindo aqueles fechados por Reino Unido, Estados Unidos e União Europeia com empresas como Pfizer, BioNtech, AstraZeneca e Moderna estão minando o esforço global, dizem especialistas.

“Todos chegarem a acordos bilaterais não é uma maneira de otimizar a situação”, disse Seth Berkley, presidente-executivo da aliança Gavi, que colidera o esquema Covax, concebido para garantir o acesso mundial rápido e justo a vacinas contra covid-19.

Nesta semana, a Pfizer disse que está conversando simultaneamente com a UE e com vários de seus países-membros sobre o fornecimento de sua vacina em potencial.

A movimentação mais recente foi do Reino Unido, que anunciou nesta quarta-feira um acordo para garantir suprimentos adiantados de vacinas em potencial da GlaxoSmithKline e da Sanofi.

De acordo com a instituição de caridade global Médicos Sem Fronteiras, isso atiçará mais “a correria dos países ricos para reservar vacinas” e instigará “uma tendência perigosa de nacionalismo da vacina”.

O receio é o suprimento e a alocação das vacinas ecoarem a última pandemia, aquela causada pelo vírus da gripe H1N1 em 2009 e 2010, quando nações ricas compraram o suprimento disponível de vacinas, inicialmente deixando seus países pobres sem nada.

Naquela ocasião, como a H1N1 acabou sendo uma doença mais branda e a pandemia acabou se extinguindo, o impacto da disparidade no acesso a vacinas nas infecções e mortes foi limitado.

Mas a covid-19 é uma ameaça muito maior, e deixar grandes parcelas da população mundial vulneráveis não só as prejudicará, mas também prorrogará a pandemia e o dano que ela pode causar, alertam especialistas de saúde.

“Existe o risco de alguns países estarem fazendo exatamente o que temíamos, que é cada um por si”, disse Gayle Smith, ex-chefe da Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA e presidente-executivo da One Campaign, entidade sem fins lucrativos que visa acabar com a pobreza e as doenças evitáveis./REUTERS 

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