Para alguns adversários, os EUA oferecem diálogo; para outros, o gelo

Presidentes costumam iniciar mandato fustigando inimigos, mas acabam travando conversas, secretas ou não

Helene Cooper, The New York Times, Washington, O Estadao de S.Paulo

18 de agosto de 2008 | 00h00

Em abril de 1959, Fidel Castro, pouco depois do seu desfile vitorioso pelas ruas de Havana, veio aos Estados Unidos numa ofensiva de charme. O jovem Fidel - tinha 32 anos na época - contratou uma empresa de relações públicas, deu entrevistas coletivas, respondeu a perguntas, comeu cachorro-quente. Condenou o comunismo repetidas vezes. Mas foi-lhe negado um encontro com o presidente Dwight Eisenhower, e, após deixar os EUA, ele voltou a Cuba e juntou forças com a União Soviética de Nikita Kruchev. Enquanto os senadores Barack Obama e John McCain continuam a discutir se o próximo presidente dos EUA deve ou não conversar com o Irã, o exemplo de Fidel oferece a mais torturante das situações hipotéticas: o que teria acontecido se Eisenhower tivesse facilitado as coisas para o líder cubano em sua primeira viagem a Washington? Ou, mais precisamente, será que os EUA poderiam ter evitado 50 anos de inimizade - incluindo uma perigosa aproximação com uma guerra nuclear - se Eisenhower tivesse simplesmente dado um grande abraço no jovem revolucionário? É improvável. A maioria dos historiadores diz que ambos os homens precisavam demais um do outro como adversários para enxergar benefícios políticos numa reaproximação prematura: Eisenhower precisava mostrar que estava enfrentando o novo governo cubano, o qual pretendia nacionalizar bens americanos, ao passo que a própria legitimidade de Fidel, sob muitos aspectos, tinha como base seu antiamericanismo. Em outras palavras, foi um clássico momento no qual conversar com um adversário suspeito provavelmente não teria levado a parte alguma - situação semelhante a que McCain diz estarmos vivendo agora, quando acusa Obama de ingenuidade ao pensar que pode ser útil conversar diretamente com o atual presidente do Irã a respeito do programa nuclear iraniano. O principal ato dessa disputa foi encenado em dias diferentes por meio de discursos para a mesma platéia, o Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel. "É difícil enxergar", disse McCain, "os ganhos reais de um tal encontro com o presidente Mahmud Ahmadinejad, além de um sermão anti-semita e uma audiência mundial para um homem que nega a existência do Holocausto e fala a multidões ensandecidas sobre dar início a outro Holocausto." Ao que Obama respondeu, no dia seguinte, dizendo que pretendia fazer tudo a seu alcance para impedir o Irã de obter a bomba - "começando pela diplomacia agressiva guiada por princípios e sem condições prévias que inviabilizem seu sucesso, mas com o claro entendimento dos nossos interesses". MANIQUEÍSMOO debate entre eles ecoa um tema que tem sido parte da história diplomática desde que existem diplomatas americanos. A realidade é que, na maioria das vezes, os presidentes americanos iniciaram seus mandatos proclamando um maniqueísmo de preto e branco absolutos a respeito de seus adversários, e acabaram deixando a Casa Branca depois de terem recorrido a tudo, desde conversas secretas e negociações extra-oficiais até encontros de Estado respeitando o protocolo. Voltemos a Fidel, por exemplo. Pouco mais de dois anos após sua visita a Washington, os EUA e a União Soviética estavam no limiar de uma guerra nuclear envolvendo a instalação - a pedido de Fidel - de mísseis soviéticos em Cuba. John F. Kennedy e Kruchev bateram publicamente no peito. "Kennedy concordou com um ataque aéreo", escreve Michael Dobbs em seu livro One Minute to Midnight: Kennedy, Khrushchev and Castro on the Brink of Nuclear War (Um minuto para a meia-noite: Kennedy, Kruchev e Castro na iminência da guerra nuclear). "Kruchev pensou seriamente em dar a seus comandantes em Cuba a autoridade para usar armamento nuclear." Mas a portas fechadas, os líderes estabeleceram um canal oculto. Kennedy mandou uma carta a Kruchev e seu irmão, Robert, chamou o embaixador soviético em Washington, Anatoli Dobrynin, para visitar seu escritório e participar de uma reunião na noite de sábado. E com este improviso, o mundo se afastou da iminência da guerra. A quase tragédia teve conseqüências profundas. Apavorados pela dificuldade em estabelecer um debate justamente quando havia tanto em jogo, os dois líderes instalaram uma linha direta para controlar melhor as crises futuras e concordaram em banir os testes atômicos. Encontros oficiais, que haviam começado no mandato de Eisenhower, com resultados variados, se tornaram um ritual para todos os presidentes seguintes. Finalmente, na Islândia, Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev avançaram em direção a um acordo de não-proliferação de armas que posteriormente ambos assinaram. Foi estabelecida uma trilha diplomática que tornaria mais fácil administrar o fim da Guerra Fria quando chegasse a hora. Uma chave para o sucesso parece ter sido a perspicácia ao julgar quando pode dar certo uma jogada mais ousada. Em 1969, Richard Nixon chegou à Casa Branca como falcão da segurança nacional com um histórico de oposição ao reconhecimento da China comunista.AÇÃO PENSADAMas, mesmo então, ele enxergou uma oportunidade de jogar a carta da China em benefício dos EUA, dizem os historiadores da diplomacia. "Ele chegou ao gabinete e já tinha um plano elaborado", disse Michael Hunt, historiador da Universidade da Carolina do Norte. "Em março ele já havia feito ofertas à China." O momento escolhido por Nixon foi primoroso; Mao Tsé-tung, o líder chinês, tinha rompido publicamente com a União Soviética havia alguns anos, e as tensões na fronteira separando as duas gigantes comunistas estavam no seu ponto mais crítico. O Vietnã do Norte acabara de abrir suas próprias negociações com os EUA. A princípio, as conversas entre Nixon e os chineses foram secretas, incluindo uma viagem clandestina de Henry Kissinger à China em 1971. Então, Nixon deixou o mundo estupefato ao anunciar que visitaria a China em 1972. No hotel Jin Jiang, Nixon e Mao assinaram o Comunicado de Xangai, firmando o compromisso de normalização das relações entre EUA e China. TONS DE CINZAAté o presidente Bush, possivelmente o defensor mais forte da opinião de "não conversar com inimigos," já abandonou o branco e o preto em favor de tonalidades de cinza em se tratando do assunto. Depois da invasão liderada pelos americanos que depôs Saddam Hussein, o Iraque foi substituído pela Síria no "Eixo do Mal" de Bush. Mas agora a administração Bush está, ao menos em certo nível, negociando com os três membros do eixo. Representantes de Bush convidaram a Síria a participar da conferência de paz de Annapolis em novembro do ano passado, e a Síria enviou seu vice-chanceler. Alguns meses antes disso, em maio, a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, conversou durante meia hora com o chanceler sírio, Walid al-Moallem, em Sharm el-Sheikh, no Egito. Condoleezza, como McCain, continua insistindo que agora não é o momento certo para manter negociações diretas com o Irã a respeito do seu programa nuclear. Ainda assim, o embaixador americano no Iraque, Ryan Crocker, já conversou diversas vezes com os representantes do Irã a respeito de temas relacionados ao Iraque. E Bush enviou uma tenra carta em dezembro ao recluso líder da Coréia do Norte, Kim Jong-il, e no último mês disse ao Congresso que pensava em tirar a Coréia do Norte da lista de países que apóiam o terrorismo, após um acordo nuclear obtido com a ajuda da China - de quem mais? Muitos especialistas em política externa dizem esperar que McCain seja tão flexível quanto seus antecessores, caso seja eleito. "Todos eles começam denunciando o inimigo, mas depois mudam de idéia e passam a afirmar que a diplomacia é a solução", diz Hunt, o historiador da Universidade da Carolina do Norte. "É interessante observar como esta mudança pode ocorrer rapidamente." TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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