Yuri Gripas/EFE
Yuri Gripas/EFE

Para aliados e republicanos, a causa dos problemas da campanha à reeleição é o próprio Trump

Para eles, a troca do coordenador da campanha ajudará pouco na resolução do principal problema enfrentado pelo republicano, que é ele mesmo e seu comportamento autodestrutivo

Ashley Parker, Josh Dawsey, Robert Costa / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 05h00

WASHINGTON - Uma mudança radical repentina na campanha eleitoral de Donald Trump é uma tentativa para reorientar os esforços com vistas à sua reeleição em meio a uma pandemia mortal, uma economia paralisada e um acerto de contas nacional com a injustiça racial.

Mas inúmeros republicanos e aliados de Trump afirmam que a posição pessoal dele - demitindo Brad Parscale e o substituindo por Bill Stepien como coordenador da campanha - ajuda muito pouco na resolução do principal problema enfrentado, que é o próprio presidente e o seu comportamento inveteradamente autodestrutivo.

Na órbita de Trump e nos círculos republicanos há um crescente mal-estar e até pânico com relação à sua conduta, com os aliados inquietos de que o presidente, que está atrás do candidato democrata Joe Biden nas pesquisas públicas e privadas, caia num abismo político.

Os republicanos já se acostumaram com o caos que parece acompanhar Trump por toda a parte, como um tornado. Eles não o estão abandonando e admitem que apoiar o presidente implica pelo menos endossar tacitamente suas ações e comentários mais incendiários.

Mas mesmo seus fiéis partidários estão desorientados com as ações do presidente que consideram autodestrutivas, e preocupados não só com sua derrota na eleição em novembro, mas também que ele arrastará o resto do partido junto com ele.

“O mundo todo mudou nos últimos seis meses e não sei se o presidente entendeu isto”, disse Amy Koch, republicana e ex-líder da maioria no Senado de Minnesota. “Sua mensagem não é ouvida por ninguém. Ele parece não entender o que as pessoas estão falando ou se preocupando."

O governo até agora não tem um plano nacional claro de combate à pandemia do coronavírus, que já matou mais de 134 mil pessoas nos Estados Unidos. E ele continua a defender a bandeira confederada - símbolo de escravidão e racismo para muitos americanos - e após os protestos em todo o país por causa da morte de um negro desarmado sob custódia da polícia, em Minneapolis, fez afirmações racistas e ofensivas.

Na semana passada ele comutou a sentença de prisão de Roger Stone, seu assessor de campanha em 2016 e pessoa da sua confiança que estava preso há mais de três anos, condenado por sete delitos; realizou uma entrevista coletiva desconexa e partidária na Casa Branca; e passou a criticar Anthony S. Fauci, o popular diretor do departamento de controle e prevenção de doenças infecciosas que auxilia o governo no combate ao coronavírus.

Para Charlie Dent, republicano que já foi congressista pelo Estado da Pensilvânia, Trump está fora de compasso com os membros do próprio partido, especialmente aqueles que estão numa dura luta pela reeleição.

“Muitos membros do partido em distritos que são decisivos na eleição sabem que precisam ampliar sua base e você acharia que este presidente, que venceu a eleição por 80 mil votos, pensaria o mesmo. Mas não, e o conflito está aí”, disse Dent, que atualmente colabora com a CNN. “Há uma total desconexão entre o presidente e essas pessoas naqueles distritos que precisam que o presidente seja mais comedido e equilibrado - e, claro, ele é totalmente incapaz disto."

A substituição do coordenador de campanha é o que menos preocupa os republicanos, acrescentou Dent.

“São os comentários e comportamentos bizarros e erráticos que vêm causando mais dor de estômago no caso de muitos republicanos. Não acho que algum membro republicano no Congresso pretende se levantar e defender a Confederação, isto não tem nenhum sentido, ou entrar em guerra com Tony Fauci”, disse Dent.

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Muitos aliados e assessores de Trump concordam entre sim, discretamente, afirmando que simplesmente mudar o coordenador de campanha não deverá ter um grande impacto. Espera-se que Jared Kushner, genro de Trump e assessor especial da Casa Branca, continue atuando como coordenador de fato da campanha - como ocorreu desde a indicação de Parscale para a função - mas no final é o próprio presidente que representa o real problema, afirmam assessores e aliados.

Jason Miller, importante figura na campanha, insistiu numa entrevista que o presidente tem sido incisivo e claro nas suas mensagens nas últimas semanas, dando como exemplo as observações feitas por ele ligando Biden aos democratas liberais. Miller disse que o trabalho de Biden com o senador Bernie Sanders e outros da órbita política do próprio Sanders, em particular, oferece um nítido contraste com Trump.

“Adotar um caminho mais à esquerda e endossar questões políticas da esquerda radical torna Biden mais vulnerável”, disse Miller, acrescentando que “Trump tem um foco nítido e claro na reconstrução da maior economia na história do mundo”.

Mas nas últimas semanas as mudanças na campanha pareciam cada vez mais inevitáveis, com Trump e Kushner mais desencantados com o ex-assessor - uma perda de confiança que chegou a um auge depois do comício de Trump em 20 de junho em Tulsa, Oklahoma, quando Parscale alardeou que havia mais de um milhão de eleitores clamando por ingressos e somente seis mil apareceram.

O presidente estava ávido para culpar alguém e os doadores inquietos com as pesquisas ruins e insistindo numa reformulação. Na manhã de quinta-feira, membros da Casa Branca e da campanha começaram a contatar republicanos para tranquilizá-los de que a situação estava melhor do que muitos imaginavam e insistir para continuarem ao lado do presidente.

Numa reunião de 20 minutos na sede da campanha, Stepien também pediu aos funcionários para ignorarem notícias na mídia e focarem na vitória em novembro. Stepien disse à sua equipe que nunca achou que a eleição seria fácil, mas que as coisas não estavam tão ruins como vinha sendo noticiado.

Em um e-mail horas depois, ele rechaçou uma pesquisa pública mostrando o presidente atrás de Biden e elogiou toda a operação de campanha de Trump. “Temos uma equipe melhor, melhores informações dos eleitores, melhor estratégia, melhor arrecadação de fundos e, o mais importante, temos um melhor candidato com um currículo melhor”, disse ele.

Embora Stepien e Trump tenham uma boa relação de trabalho, os dois homens não são íntimos e não mantêm um relacionamento pessoal mais próximo, dizem assessores. E apesar de estar na órbita do presidente desde a eleição de 2016, Stepien não tem vínculos profundos com a família de Trump como era o caso de Parscale.

Pessoas próximas afirmam que ele não pretende dar entrevistas para a TV ou polir sua imagem pública, e que o fato de Parscale aparecer demais na mídia foi uma das razões da sua demissão.

Stepien está muito interessado em dados de condados e de Estados e considera sua função como a de um gerente de operações de campo, disse um funcionário de sua equipe. Ele planeja concentrar os esforços na obtenção de mais votos e garantir que em Estados em que a disputa é acirrada a campanha conte com a equipe certa e os recursos necessários.

Ele deve adotar outras medidas na próxima semana no tocante à reorganização da campanha e da equipe, e pessoalmente telefonou para diretores em campo regionais como também diretores políticos, segundo o mesmo funcionário.

Mike DuHaime, estrategista do ex-governador de New Jersey Chris Christie, político republicano e amigo próximo de Stepien, disse que a força do novo coordenador da campanha estará “nas decisões que adotará”. “Ele é incrivelmente inteligente quanto a dados e toma decisões imparciais e sempre no melhor interesse da campanha”, disse ele.

Trump não deu a notícia diretamente para Parscale, mas encarregou Kushner de informar a ele. Segundo duas pessoas ligadas a Parscale, o assessor ficou muito aborrecido na noite de quarta-feira e surpreso com a decisão de Trump sem primeiro discutir o assunto com ele.

Alguns republicanos mostram um otimismo cauteloso de que as mudanças pelo menos indiquem um reconhecimento pelo presidente de que ele tem apenas quatro meses para salvar as esperanças de uma reeleição.

Ethan Baker, republicano e prefeito de Troy, Michigan, disse não achar que o presidente está engajado numa autodestruição. “Isto faz parte do seu estilo e personalidade e não é compreendido e captado por muitos de nós, sinceramente falando”, afirmou.

Mas, pressionado a dizer se as ações do presidente podem prejudicar sua campanha, Baker fez uma pausa e riu. “Bem, acho que sim. Existe sempre o risco de ele perder mais votos do que ganhar e isto pode de fato prejudicá-lo na eleição”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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