Para analista chinês, China apóia sanções, mas sem troca de regime

A China poderia aceitar as sanções propostas pelos Estados Unidos contra a Coréia do Norte no Conselho de Segurança da ONU, contanto que elas não levem à queda do líder norte-coreano Kin Jong-il, avalia o especialista em relações internacionais da City University de Hong Kong Joseph Cheng. Para o acadêmico, a questão divergente entre a China e o resto do mundo é exatamente a troca de regime em Pyongyang. ?Se as sanções levarem à queda de Kim Jong-il, a China vai se opor?, disse em entrevista à BBC Brasil. A China é aliada de longa data da Coréia do Norte e resiste a grandes mudanças no país. Um dos motivos disso seria a possibilidade de uma invasão de imigrantes norte-coreanos no caso de um colapso do regime. Além disso, Pequim considera Pyongyang uma força de esquerda importante para contrabalançar a influência do Japão e os interesses dos Estados Unidos no leste da Ásia. O Council on Foreign Relations, centro de estudos políticos baseado em Washington, nos Estados Unidos, calcula que as trocas comerciais e os investimentos da China com a Coréia do Norte somem US$ 2 bilhões ao ano. A organização estima ainda que 70% dos alimentos e até 80% do combustível consumido pela Coréia do Norte sejam fornecidos pela China.Nações UnidasO analista político Bob Broadfoot, da consultoria Political and Economic Risk de Hong Kong, também acredita que a China poderia dar suporte à proposta apresentada pelos Estados Unidos e o Japão no Conselho de Segurança da ONU.Ele acredita que a China busca ter um papel mediador, mas dadas as circunstâncias, pressionar pode ser a única opção para trazer Kim Jong-il de volta à mesa de negociações. A proposta apresentada pelos Estados Unidos e o Japão ao Conselho de Segurança da ONU prevê 13 pontos, entre eles: a suspensão do comércio de materiais utilizados para construir armas de destruição em massa, a intensificação das inspeções de cargas, a proibição de certas transações financeiras e o fechamento de portos e aeroportos estrangeiros para navios e aviões norte-coreanos.Apesar de a proposta envolver severas restrições, Pequim pode vir a apóia-la se concluir que não representa ameaça à liderança de Kim Jong-il.Abstenção ?Acredito que a China deve se abster de votar no Conselho de Segurança da ONU, se as sanções forem leves aos olhos de Pequim?, afirmou o professor Joseph Cheng.A abstenção neste caso representaria uma forma velada de aprovação, pois a China não estaria exercendo ativamente seu direito a veto.?Grande parte dos alimentos consumidos na Coréia do Norte são fornecidos pela China, que pode impor sanções graduais nisso. Ela também pode repetir o que fez há anos atrás e fechar o oleoduto da fronteira? disse Cheng.No começo de 2003, a China suspendeu temporariamente o abastecimento de petróleo à Coréia do Norte, mas alegou na época que o corte foi por causa de trabalhos na manutenção do oleoduto. Equilíbrio Broadfoot acredita que tanto a China como o resto do mundo precisam agir com prudência e encontrar um equilíbrio. ?Não se deve pressionar a Coréia do Norte a ponto de deixá-la sem opções, ou desesperada. Se for assim, não vai haver outra escolha, a não ser vender a tecnologia nuclear para países como o Irã e a Síria em troca de comida e isso vai ser pior para todos?, conclui o consultor. Tanto Broadfoot como Cheng descartam um cenário de guerra em Pyongyang com o argumento de que nenhum país da região teria como se engajar na batalha, ao mesmo tempo que os Estados Unidos estão com as suas capacidades comprometidas no Iraque e no Afeganistão.O risco é uma reação armamentista em cadeia, como explica Cheng. ?O Japão vai reforçar seu sistema de vigilância por satélite e deve comprar mais armas. A China não vai querer ficar para trás e a Coréia do Sul, por razões óbvias, vai tentar se proteger também. Resultado: toda a região vai ficar mais militarizada?Na edição desta terça-feira, o jornal China Daily deu como manchete Pequim decididamente contra o teste, ecoando a agência de notícias oficiais Xinhua, que qualificou o teste de ?imprudente?. O South China Daily Post, jornal independente de Hong Kong, publicou na capa ?Mundo condena teste nuclear na Coréia do Norte?.

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