Para analista, governo se irrita com imprensa que 'não veste camisa' do país

ENTREVISTA

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

Susana Mitchell, diretora de educação em jornalismo da SIP

O que a presidente quis dizer com "nacionalizar"?

Ela não falou de propriedade das empresas jornalísticas, mas do tom da cobertura da imprensa, que, do seu ponto de vista, não é patriótico, não "veste a camisa da Argentina", não defende o que ela julga ser o interesse maior do país.

Mas o contexto de disputa acirrada entre governo e imprensa não dá outra cor à declaração?

Claro. O governo está questionando uma medida cautelar da Justiça conta a Lei de Mídia proposta pela presidente. Neste ambiente, tudo parece levar à constatação de que o governo é contra a liberdade de imprensa. Há ações efetivas contra o Grupo Clarín, principalmente no âmbito econômico. Há problemas na repartição das verbas publicitárias estatais e também nas disputas sobre o controle da venda de papel para jornal. Além disso, a presidente Cristina Kirchner e seu marido (Nestor Kirchner) evitam a todo custo falar com os jornalistas em entrevistas coletivas. Eles dão preferência aos discursos ininterruptos em cadeias nacionais de rádio e TV.

As leis propostas pelo governo argentino tentam regular o conteúdo veiculado pelos meios de comunicação ou a propriedade das empresas de comunicação?

As leis que estão sendo propostas são complexas e tentam regular alguns aspectos da propriedade e outros de conteúdo, mas com muitas nuances. As rádios e TVs podem ser obrigadas, por exemplo, a veicular um porcentual determinado de conteúdo nacional. Não são leis que digam o que pode ou o que não pode ser dito. O governo não chegou ao absurdo de determinar o que pode ou não pode ser dito e os jornais argentinos estão cheios de críticas ao governo, todos os dias. Cada país tem seus problemas. No Brasil, há restrições da Justiça à atuação da imprensa. No México, há o problema dos atentados a bomba. Mas podemos dizer que ainda estamos longe de um quadro como o que se verifica na Venezuela, em Honduras, na Guatemala ou no México. Aqui ninguém ainda foi preso por exercer sua liberdade de expressão. Contudo, é preciso levar em conta que exagerar as coisas não contribui para um diálogo honesto sobre a questão da livre atuação da imprensa e isso vale para todos os lados envolvidos nestas disputas políticas e econômicas.

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