LEON NEAL/AFP
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Para analista, 'Indicadores econômicos ajudaram conservadores'

Juros e inflação baixos, além de empregos plenos, foram fatores cruciaispara a vitória de David Cameron, diz analista

Entrevista com

Jonathan Tonge

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2015 | 02h03

A sexta-feira foi um dia intenso na Grã-Bretanha para analistas como Jonathan Tonge, cientista político da Universidade de Liverpool, especialista em política partidária britânica e em processos eleitorais, Tonge passou o dia respondendo à imprensa sobre as razões da vitória do conservador David Cameron. A seguir, trechos da entrevista:

Quase ninguém acreditava que um partido pudesse obter a maioria absoluta. O que ocorreu que pode ter beneficiado Cameron?

Em primeiro lugar, creio que houve uma adesão tardia a Cameron. O premiê deixou muito claro nos últimos dias de campanha que a eleição seria decidida entre ele e o trabalhista Ed Miliband, e apenas os dois poderiam chegar ao poder. Ele foi muito inteligente em apresentar o cenário de vitória de Miliband como uma catástrofe, dizendo que os trabalhistas fariam uma coalizão com o Partido Nacional Escocês (SNP) e haviam sido responsáveis pela quebra da economia britânica em 2009. Creio que esse medo desempenhou um papel significativo nas eleições. Em segundo lugar, as pesquisas de opinião estavam erradas, pois tiveram como base sondagens via internet, o que não captura o voto de pessoas mais velhas, mais suscetíveis a votar pelo Partido Conservador. Em terceiro, os trabalhistas nunca conseguiram de fato se afirmar como uma alternativa crível do ponto de vista econômico. Os conservadores sempre se afirmaram como a alternativa segura em termos de economia. Tudo isso junto foi favorável a Cameron. Mas creio que todos os britânicos foram surpreendidos pelos resultados das urnas e pela formação de um governo de maioria.

Finalmente o julgamento da população sobre o governo de Cameron não foi assim tão severo, certo?

Sim, você está certo. As pesquisas de opinião estavam mostrando que não era muito "sexy", não estava muito na moda apoiar o governo de Cameron durante a campanha. Mas, no fim das contas, creio que o raciocínio do eleitorado foi que Cameron estava fazendo um trabalho razoável. Essa opinião não aparecia nas pesquisas, mas apareceu nas urnas. Cameron chegou às eleições com ótimos indicadores econômicos, com crescimento, pleno emprego, baixa taxa de juros, baixa inflação. É uma narrativa econômica muito forte, algo que os trabalhistas não dispunham nesta eleição. Eles foram, ao contrário, assombrados pelo que ocorreu em 2009, com o governo de Gordon Brown gastando todo o dinheiro que o país possuía. O voto de confiança na política econômica decidiu a eleição, mais do que qualquer outro fator.

Cameron havia prometido realizar um referendo sobre a União Europeia em 2017. Isso pode ser um problema para seu segundo mandato?

O referendo vai ser um verdadeiro problema. Cameron, na realidade, não quer que a Grã-Bretanha abandone a União Europeia. O que ele vai tentar fazer é se aproximar dos líderes da UE e tentar negociar um acordo mais interessante para Londres. Talvez até consiga melhores termos financeiros para os britânicos, já que a Grã-Bretanha sempre foi um contribuinte líquido do orçamento de Bruxelas. Mas será muito mais difícil para Cameron conseguir vitórias em temas políticos, em especial sobre imigração. A UE acredita na livre circulação de trabalhadores, mas esse movimento tem ocorrido principalmente em direção à Grã-Bretanha, o que é um problema maior para a sociedade britânica. Esta é, aliás, a razão pela qual o Ukip (Partido da Independência do Reino Unido) teve bom resultado na eleição.

Na hipótese de os britânicos decidirem deixar a UE, muitos creem que a Escócia também fará um novo referendo sobre a Grã-Bretanha. O senhor acha que o resultado pode ser diferente do referendo de 2014?

O referendo sobre a UE e uma eventual resposta em favor da saída da Grã-Bretanha será a desculpa perfeita para um novo referendo na Escócia, o que o SNP quer de qualquer forma. Eles alegarão que a posição constitucional da Escócia em relação à Grã-Bretanha mudou, já que o país não será mais membro da UE. O SNP sempre acreditou na integração com a Europa. Eles se sentirão livres para não fazer parte da Grã-Bretanha, mas para continuar a fazer parte da União Europeia. Creio que isso mudará o humor entre os britânicos na hora de avaliar se vão ou não manter a integração com Bruxelas.

Com a renúncia de Miliband à liderança dos trabalhistas, qual será o futuro do partido?

Os trabalhistas têm vários nomes que podem substituir Miliband, entre os quais Andy Burnham e Yvette Cooper, que poderia ser a primeira mulher na liderança do partido. Poderia ainda ser Dan Jarvis. O partido tem quadros excelentes. O maior problema dos trabalhistas será recuperar a reputação sobre sua competência no campo econômico, afetada quando Gordon Brown se tornou líder do partido e primeiro-ministro.

O que representa a emergência das novas forças políticas, os verdes, o Ukip e o SNP? Por que os britânicos estão voltando suas atenções a esses partidos?

É preciso separar SNP de Ukip e dos verdes, que não serão grandes partidos no novo Parlamento. Já o Partido Nacional Escocês será um grande ator em Westminster. Além disso, ele tem um governo majoritário na Escócia e saiu fortalecidos para as eleições do ano que vem no país.

*  Jonathan Tonge é cientista político da Universidade de Liverpool e especialista em política partidária britânica e processos eleitorais

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