Ahmad Gharabli/AFP
Ahmad Gharabli/AFP

Para analista, rusgas entre Israel e Irã são históricas e têm motivação eleitoral

Premiê Binyamin Netanyahu entrou em confronto novamente com o Irã após mostrar imagens de suposto local de fabricação e testes de armas nucleares

Carla Bridi, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2019 | 08h00

Na segunda-feira, 9, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, apresentou mais uma ofensiva contra o Irã, ao afirmar que havia encontrado o local onde o país produz e testa armas nucleares.

No período que antecede a segunda eleição em Israel somente neste ano, já que Netanyahu não conseguiu formar governo após ter sido eleito em abril, o premiê tem trocado rusgas tanto com o Irã quanto com outros países vizinhos que tenham relações com o país persa.

O Estado entrevistou o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, para explicar tais questões. 

Podemos afirmar que os embates de Netanyahu em várias frentes contra o Irã fazem parte de sua campanha eleitoral?

Esse cenário sempre é usado pelos governos nas eleições. (Mahmoud) Ahmadinejad, (ex-presidente do Irã), era um que fazia isso no Irã, sempre provocativo. Tem uma estrutura propícia com as eleições, que sempre servem de gatilho. Quem está despontando em Israel agora é alguém que está mais à direita de Netanyahu, foi seu ministro. Ele está com medo de perder esse apoio da população, e quer competir como quem enfrenta melhor as ameaças, quem garante a segurança em Israel. É algo que não imaginávamos há alguns anos.

Seria uma estratégia para desviar a atenção das denúncias de corrupção contra o premiê?

Sem dúvidas. Netanyahu tem passado por uma crise de legitimidade, por causa das denúncias de corrupção. E para isso, nada melhor do que reavivar a questão com Irã. Há alguns meses, já estavam anunciando que iria ter problemas na fronteira com o Líbano. Tudo é muito sensível. E Israel, cada vez mais com política expansiva, assentamentos (israelenses) crescendo na Palestina, adota um discurso mais agressivo.

Como é a dinâmica da relação entre Irã e Israel?

A influência do Irã no Líbano é de longa data pelo Hezbollah, que está institucionalizado no país. Síria e Iraque também, de maneiras diferentes. No Iraque é interessante porque tanto Irã quanto Estados Unidos defendem o governo, ou seja, ali são aliados. O complicador é Israel. Iraque não tem aliança com Irã por causa de Israel. Assim, as rusgas vão continuar porque há uma disputa regional muito forte. O Irã nem tem armas nucleares. Mesmo que tivesse, toda a região iria para o espaço. É uma conversa que não tem sentido. Esse jogo político diplomático ali na região é um discurso que impera, guardadas as proporções, quase como que na Guerra Fria. A questão nuclear sempre é levantada, e com isso o suporte da comunidade internacional contra a proliferação.

E qual seria a motivação do Irã em aumentar os índices de produção nuclear?

A questão do Irã é mais de médio prazo. Na perspectiva histórica, volta a essa ideia de produção nuclear, principalmente depois das guerras do Afeganistão e do Iraque. Após as invasões americanas, o Irã cresceu, e começou a disputar o poder econômico com Israel e Arábia Saudita. Se olharmos no mapa, o país está cercado. A questão nuclear vai além de quem está no governo. O governante pode ser mais ou menos radical, mas o discurso se mantém.

Cartazes com a imagem de Netanyahu dando as mãos a Donald Trump estão sendo pendurados em Israel. A que se atribui essa associação?

É um apelo interno e um apelo para a comunidade judaica nos EUA. Também nos EUA, a comunidade judaica está cada vez mais contra o Trump e contra o expansionismo de Netanyahu, como apontam as últimas pesquisas. Ele usa muito a política interna para influenciar na externa.

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