AP Photo/Mulugeta Ayene
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Para analistas, eleição no Egito será formalização de Sissi na presidência

Com apenas um adversário, presidente que governa o país com mão de ferro desde o golpe de Estado de 2013 não terá dificuldades para se manter no cargo; personalidades egípcias fazem apelo público para que eleitores boicotem votação

O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2018 | 16h22

CAIRO - Sem rivais de peso, a eleição presidencial no Egito marcada para 26 de março caminha para ser uma mera formalização para que Abdel-Fatah al-Sissi, que governa o país com mão de ferro desde o golpe de Estado de 2013, continue no poder.

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O líder do partido liberal egípcio Al Ghad, Musa Mustafá Musa, formalizou sua candidatura pouco antes do encerramento do prazo máximo, ao meio-dia (8 horas, em Brasília) desta segunda-feira, 29. A medida, no entanto, foi vista por especialistas como uma forma de atual chefe de Estado não ser candidato único e não deve interferir no resultado da votação.

O fato é que ninguém parece ter capacidade de se opor ao ex-marechal Sissi quatro anos depois de sua primeira vitória eleitoral, quando obteve 96,9% dos votos.

Antes de ser presidente, Sissi - enquanto chefe do Exército - participou ativamente do golpe de Estado que derrubou seu antecessor, o islamista Mohamed Morsi, em 2013, e reprimiu com violência os partidários da Irmandade Muçulmana.

Ao se transformar em chefe de Estado, suprimiu tanto a oposição islamista quanto a liberal, enviando para a prisão centenas de opositores. Nas últimas semanas, vários candidatos foram retirados ou abandonaram o processo eleitoral por considerarem que o resultado já está decidido.

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"(Sissi) quer ser o único candidato que pode ganhar", disse Hasán Nafaa, professor emérito de ciências políticas da Universidade do Cairo. Segundo Nafaa, com a votação em 26 de março o presidente busca "uma espécie de plebiscito" sobre seu governo.

Pressão e prisão

O ex-chefe do Estado-Maior do Exército, Sami Anan, foi excluído do processo eleitoral na semana passada sob acusação da Justiça militar de ter se comprometido com a disputa "sem a autorização das Forças Armadas". Desde então, seu aliados dizem não ter notícias dele.

No fim de novembro, o ex-primeiro ministro Ahmed Shafik anunciou sua candidatura dos Emirados Árabes Unidos, onde vivia. Ao retornar ao Egito, desapareceu durante 24 horas e, pouco depois, anunciou que não disputaria mais a presidência.

O ex-deputado dissidente Mohamed Anuar El Sadat, sobrinho do ex-presidente Anuar El Sadat, e o advogado defensor de direitos humanos Khaled Ali denunciaram pressões e também abandonaram a corrida presidencial.

O coronel Ahmed Konsowa foi preso pouco depois de anunciar sua candidatura no fim de novembro. Ele foi condenado a seis anos de prisão por "comportamento prejudicial às exigências do sistema militar".

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No domingo, cinco personalidades egípcias, incluindo Mohamed Anuar El Sadat, fizeram apelo público para que os eleitores boicotem o processo e acusaram o regime de "impedir qualquer competição justa".

"A atitude da presidência e do regime refletem o medo e uma falta de confiança", diz Hasán Nafaa. O professor considera que Sissi "tem noção de que é menos popular do que a propaganda oficial se emprenha em mostrar".

Para Samuel Tadros, pesquisador especializado no Oriente Médio, Sissi não só rejeita a presença de concorrentes potenciais como também nega o próprio conceito de democracia. "Ele sente um profundo ódio contra a ideia de política, feita de compromissos e negociações", analisa.

Embora os presidentes anteriores do Egito tenham vindo do Exército, Gamal Abdel Naser, Anuar El Sadat e Hosni Mubarak ocuparam cargos políticos antes de virar chefe de Estado, diz Tadros. "(Sissi) passou das casernas para a presidência sem qualquer educação política", conclui. / AFP e EFE

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