Para analistas, fracassa estratégia de "chocar" o Iraque

Seis dias depois do início de uma guerra que prometia ser rápida e relativamente incruenta, analistas militares americanos admitem que a estratégia de bombardeio aéreo maciço em Bagdá e outros pontos do Iraque, planejado para "chocar, causar pânico" e precipitar a rendição do exército iraquiano e o colapso do regime de Saddam Hussein não produziu o resultado esperado e deixou as forças dos Estados Unidos e da Inglaterra numa posição vulnerável.Embora não haja dúvida sobre o desfecho final, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e os chefes militares americanos enfrentaram, nas últimas 48 horas, as primeiras críticas públicas pela forma como planejaram e estão conduzindo a guerra. "Está claro que o regime (de Saddam Hussein) e a Guarda Republicana não estão mais chocados", disse o coronel reformado Samuel Gardiner, professor de planejamento e operações nas academias militares dos EUA e consultor do Pentágono, no programa The Newshour, da rede PBS.Gardiner lembrou que a história militar ensina que o "choque tem um valor temporário" e deve ser seguido por uma manobra, que não aconteceu até agora. "Estamos entrando na fase da guerra de atrito e vamos ter que liquidar a Guarda Republicana" para vencer a batalha por Bagdá, afirmou. Segundo o oficial, isso faz parte do plano de guerra desenvolvido pelo general Tommy Franks, o chefe do Comando Central americano. "Teremos dificuldades, mas vamos ter que enfrentá-los (os iraquianos) diretamente".O general reformado Barry McCaffrey, que comandou a 24ª Divisão de Infantaria durante a Primeira Guerra do Golfo, 1991, foi menos diplomático. No primeiro ataque aberto contra o plano de guerra do Pentágono, McCaffrey disse na segunda-feira à noite à BBC que seus autores subestimaram o número de tropas necessárias para realizar a missão. Ele previu que um assalto a Bagdá produzirá perdas pesadas. "Se os iraquianos lutarem de verdade, e essa é uma das premissas, claramente será (uma batalha) brutal, uma tarefa perigosa e, falando francamente, poderemos sofrer 2 mil a 3 mil baixas", afirmou o ex-general, que se tornou o militar mais condecorado dos EUA depois da guerra de 1991. "Se eles (os americanos e os ingleses) não estiverem dispostos a enfrentar isso, poderemos ter dificuldade em tomar Bagdá e Tikrit", afirmou, referindo-se à cidade natal de Saddam Hussein.McCaffrey disse que "os dois ou três dias de batalhas arriscadas" que as forças americanas e inglesas enfrentaram em Umm Qsar, Basra e Nassíria, no caminho de Bagdá, puseram em evidência o fato de que a longa rota de cerca de 400 quilômetros que precisa ser mantida para garantir o suprimento das tropas que avançaram rapidamente rumo à capital é vulnerável.Segundo o ex-general, que foi chefe do Comando Sul e diretor da política antidrogas da Casa Branca, na administração Clinton, o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, cometeu um sério erro sobre a natureza do conflito e não ouviu os generais que o aconselharam a não iniciar a ofensiva sem ter à sua disposição um maior contingente de forças terrestres. "Acho que ele pensou que esses generais dos EUA estavam com seus pés plantados na Segunda Guerra Mundial e que eles não compreendiam a guerra moderna", afirmou McCaffrey. É sabido que as relações entre o secretário de Defesa e os membros do Estado Maior americano eram tensas antes dos ataques terroristas de 11 de setembro, e não melhoraram substancialmente depois.McCaffrey disse estar convencido de que as forças aliadas destruirão a defesa iraquiana. "Mas nunca fizemos isso com uma força tão modesta a uma distância tão grande de suas bases", explicou. Os EUA têm cerca de 200 mil soldados no Golfo, mas apenas 50 mil combatentes para fazer um eventual cerco de Bagdá. Outros analistas militares ecoaram as críticas feitas por McCaffrey e previram que, se as forças americanas e inglesas encontrarem uma resistência determinada da Guarda Republicana nas portas da capital iraquiana, seus comandantes provavelmente farão uma pausa de um par de semanas no avanço por terra, à espera da chegada da Terceira Divisão Mecanizada e de outras unidades ainda a caminho.O cenário que mais preocupa os analistas é o de a resistência iraquiana continuar, mesmo depois de contínuos bombardeios aéreos das posições defendidas pela Guarda Republicana e da chegada de reforços, e as tropas americana e inglesa serem levadas a uma batalha urbana em Bagdá.Uma prenúncio está em curso desde hoje em Basra, a segunda maior cidade do Iraque, com 2 milhões de habitantes e, agora, "um alvo militar legítimo", segundo fonte do Comando Central.Rumsfeld rejeitou hoje a crítica de que a ofensiva terrestre foi lançada sem o contingente necessário de tropas e veículos blindados.Ele afirmou que os chefes militares sentem-se "confortáveis" com o plano e que as forças americanas continuam a chegar no Iraque "a cada minuto, cada hora e cada dia". Mas o secretário da Defesa disse que "estamos ainda mais perto do começo do que do fim" do conflito.O brigadeiro Richard Meyers, chefe do Estado Maior Conjunto americano, também respondeu a McCafrey e a outros analistas que vêem limitações e riscos na estratégia do Pentágono. "O plano é brilhante", disse Meyers. Ele acusou os iraquianos de estarem estarem usando táticas de guerrilha contra as forças invasoras que, segundo disse, "são contrárias ao código de conduta de guerras". Veja o especial :

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