Frederico Afitti/EFE
Frederico Afitti/EFE

Para analistas, Martínez deve reconquistar eleitores para vencer no Uruguai

Candidato oposicionista, Lacalle Pou, teve 28,6% dos votos e tenta formar coalizão com outros partidos da oposição

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2019 | 18h09

MONTEVIDÉU - O partido de situação Frente Ampla (FA), a força de esquerda que governa o Uruguai desde 2005, deve reconquistar os eleitores desencantados se quiser disputar o governo contra uma coalizão de oposição que tem se formado para enfrentá-la no segundo turno das eleições, em 24 de novembro, avaliaram analistas nesta segunda-feira, 28.

“A força (política) mais importante do Uruguai se chama Frente Ampla”, disse na noite deste domingo, 27, o candidato governista Daniel Martínez, que concorrerá contra o ex-senador Luis Lacalle Pou pela presidência do país no próximo mês, ao falar com militantes depois da divulgação dos resultados do primeiro turno.

Mesmo sendo o partido mais votado, com 39,2% dos votos, a Frente Ampla deve enfrentar uma coligação de oposição formada por Lacalle Pou, que obteve 28,6% dos votos no primeiro turno, o Partido Colorado (12,3% dos votos) e o partido de direita Cabildo Abierto (10,9%). Negociações entre os três estão em andamento.

Com o apoio de partidos menores, o ex-senador busca criar uma base para a sua coalizão para promover uma alternância de poder após 15 anos de governos da Frente Ampla, que é, por sua vez, uma coalizão de grupos de esquerda que atua como partido político e tem formado uma “maioria isolada” no Parlamento desde as eleições que encerraram a maioria absoluta no Congresso.

“Uma alternância de poder estava latente”, afirmou Lacalle Pou, em discurso ao final da noite do primeiro turno. “Aquele que chega destruindo, que chega desunindo, não poderá mais construir”, disse o ex-senador em referência à falta de parcerias visíveis da Frente Ampla e à dificuldade do governo em uma possível busca por alianças com partidos da oposição.

Pelos votos perdidos

Para o cientista político Eduardo Bottineli, não há espaço para duas interpretações: o “primeiro desafio (dos governistas) é encontrar os eleitores que já votaram na Frente Ampla e não votaram agora”.

Deve “reconquistar esses ou qualquer outro eleitor da oposição”, seja de grandes partidos ou de partidos menores, afirmou o especialista referindo-se à queda de oito pontos porcentuais dos votos na Frente Ampla em 2019 em relação às eleições de 2014.

Para isso, segundo Bottineli, Martínez “tem de mudar agora, hoje, para um discurso mais claro e propositivo e fazer com que as pessoas se identifiquem com os avanços da Frente Ampla”, além de dar “argumentos” aos eleitores que não têm pretensão de votar em Lacalle Pou.

Hoje, “a população não tem a sensação de que vai perder o que já tem com a vitória da oposição”, como diz o discurso de campanha da Frente Ampla, analisa Bottineli.

O cientista político da Universidade da República, Diego Luján, concorda que, para Martínez, o desafio é “atrair eleitores que claramente não o apoiaram no primeiro turno” e, para isso, uma opção seria voltar-se ao centro político.

Luján ressalta que essa alternativa traria “mais competitividade” à Frente Ampla no segundo turno, “mas teria, como custo a longo prazo, o desfoque ideológico e programático de um partido que mantinha uma consistência e coerência de posições desde sua fundação há 40 anos”.

Luján também destacou o “desgaste” dos 15 anos de governo da Frente Ampla, que chega às eleições de 2019 com uma economia estagnada, índice de desemprego de 9% e uma taxa recorde de homicídios.

Além disso, em 2017, o vice-presidente da Frente Ampla, Raúl Sendic, renunciou em meio a um escândalo em que foi processado por suborno e abuso de autoridade. A posição do governo favorável ao regime de Nicolás Maduro na Venezuela também foi alvo de críticas tanto de governistas quanto de outros membros do sistema político e gerou decepção na população.

Uma coalizão 'multicolor'

Lacalle Pou, que enxergou o resultado nas eleições como uma vitória em sua segunda tentativa de chegar à presidência, propôs aos seus oponentes também oposicionistas formar “um governo multicolor encabeçado pelo Partido Nacional”.

Seus rivais de primeiro turno, o economista Ernesto Talvi (Partido Colorado), e o ex-comandante-chefe do Exército, Guido Manini Ríos (Cabildo Abierto), anunciaram imediatamente seu apoio ao advogado de 46 anos, assim como os partidos minoritários Partido do Povo e Partido Independente. / AFP

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