Para analistas, reunião de Obama e Netanyahu aumentou distância entre EUA e Israel

Tensão e divergências teriam marcado encontro que discutiu questão palestina e poderio nuclear do Irã.

Guila Flint, BBC

21 de maio de 2009 | 09h27

O encontro entre o presidente americano Barack Obama e o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu nesta semana aumentou ainda mais a distância entre os Estados Unidos e Israel, segundo analistas israelenses.

"Os líderes não concordaram em quase nada", afirmou o analista político do jornal Yediot Ahronot, Nahum Barnea.

Para Yaron Dekel, analista do canal estatal da TV israelense "nesseencontro ficou claro que o cheque em branco que Bush havia dado aogoverno israelense deixou de existir".

"Não houve uma declaração conjunta, pois parece haver mais divergências do que pontos em comum", afirmou Eytan Gilboa, especialista em Relações Internacionais do Centrode Estudos Estratégicos Begin-Sadat.

'Tenso e difícil'

O encontro de Netanyahu com Obama no início desta semana, foi definido pela imprensa local como "tenso e difícil".

As principais questões discutidas pelos líderes foram o conflito israelense-palestino e o projeto nuclear iraniano.

Para analistas ouvidos pela BBC Brasil após o encontro, "algo mudou" na atitude do governo americano em relação a Israel, o país com o qual os Estados Unidos mantiveram a relação de confiança e de coordenação estratégica mais próxima no Oriente Médio.

Para Gilboa, "o interesse de Obama é demonstrar um certo distanciamento de Israel,pois ele quer que os países árabes o ajudem a resolver os problemas com oIraque e o Irã".

"O objetivo de Obama é iniciar um processo de reconciliação com o mundo árabe e islâmico. Ele estádesenvolvendo uma nova estratégia para o Oriente Médio, pretende criarnovas alianças e tentar se aproximar mais de países sunitas como oEgito, a Jordânia e a Arábia Saudita", disse Gilboa.

Confiança

A Casa Branca já anunciou que Obama irá visitar o Egito no próximo dia 4 de junho. Na ocasião, o presidente americano fará um discurso dirigido ao mundo árabe e islâmico.

Essa será a primeira visita de Obama ao Oriente Médio desde que assumiu o cargo, e Israel não está incluído no roteiro.

Segundo Gilboa, a confiança que havia entre os governos do presidente George W. Bush e dos premiês israelenses Ariel Sharon e Ehud Olmert "parece ter diminuído".

Para o cientista político Jonathan Rynhold, da Universidade BarIlan, "as circunstâncias políticas no Oriente Médio mudaram, gerandouma alteração nos interesses dos Estados Unidos na região e na atitudeem relação a Israel".

"Durante as gestões de Clinton e de Bush,geralmente Israel e os Estados Unidos estavam do mesmo lado e tinhamposições muito semelhantes", disse Rynhold à BBC Brasil.

"Aexceção ocorreu durante a primeira gestão de Netanyahu (1996-1999), masdurante os governos de Itzhak Rabin e Ehud Barak havia uma grandeproximidade com o governo Clinton, e tanto Ariel Sharon como EhudOlmert estiveram do lado de Bush na luta contra o terror".

analista também disse que o fato de os democratas estarem no governo edominando o Congresso "dificultou mais ainda a visita de Netanyahu".

"Destavez, Netanyahu não pode utilizar o Congresso para pressionar opresidente, como fez na época do governo Clinton, quando o Congressoera de maioria republicana", disse.

Em 1996, depois de ser eleito pela primeira vez ao cargo de primeiroministro de Israel, Binyamin Netanyahu foi ovacionado no Congressoamericano em meio a divergências sobre o processo de paz com o entãopresidente Bill Clinton.

Segundo o repórter do canal 10 da TVisraelense, Chico Menashe, a recente visita do premiê israelense aoCongresso foi muito diferente.

"Os senadores com quem Netanyahutentou falar sobre a ameaça iraniana responderam com criticas àconstrução dos assentamentos", afirmou Menashe, que acompanhou a visitado premiê a Washington.

Já para Akiva Eldar, analista político do jornal Haaretz, "por enquanto as divergências são apenas no plano retórico".

"Obamaparece mais determinado do que presidentes americanos anteriores apressionar Israel a aceitar a solução de dois Estados e parar aconstrução de assentamentos nos territórios palestinos", disse Eldar àBBC Brasil.

"Porém, o importante será ver o que Obama fará caso Israel não ceda às suas pressões", acrescentou.

"Agrande questão é se Obama pretende impor sanções sérias contra Israelse chegar à conclusão de que Israel representa um obstáculo a sua novaestratégia para o Oriente Médio", concluiu Akiva Eldar.

Irã

Além das questão palestina, as incertezas sobre o poderio nuclear do Irã também se tornaram em um foco de diferenças entre Washington e Tel Aviv.

O diretor da CIA, Leon Panetta, confirmou na quarta-feira que esteverecentemente em Israel para conversar com o Netanyahu sobre a questãoiraniana, depois que a imprensa revelou que o presidente Obama haviaenviado um emissário especial para advertir o governo israelense contraum ataque independente ao Irã.

Para Gilboa, "Israel não confia que os americanos realmente farão tudo para impedir o armamento nuclear do Irã e os Estados Unidos não confiam que Israel não vá realizar uma ação militar contra o Irã sem consultá-los". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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