Para argentinos, domínio peronista é inevitável

O acordo provisório fechado pelos peronistas para permitir a transição do poder na Argentina foi recebido sem nenhum entusiasmo pela população. Embora o movimento popular que acabou precipitando a renúncia do ex-presidente De la Rúa tenha expressado o forte anseio dos argentinos por mudanças profundas no sistema político do país, para muitos pouca coisa irá mudar daqui para frente."Teremos mais da mesma coisa. Serão mudanças cosméticas", diz um senhor que se identifica apenas como Carlos Alberto, no passeio da Avenida 9 de Julho, no centro de Buenos Aires. "São as mesmas caras há 20 anos", acrescenta, referindo-se aos políticos, peronistas ou não, que ocupam os principais cargos no Poder Executivo ou no Congresso.Por outro lado, o sentimento de alívio com a saída de Cavallo e De la Rúa, abre espaço para uma esperança de que, afinal, algo poderá melhorar na vida do País. "Pior do que estava não poderá ficar", diz o aposentado Jorge Gonzalez, enquanto passeia pelas alamedas arborizadas do elegante bairro da Recoleta, reduto da classe média alta de Buenos Aires. "Os peronistas são os únicos que têm condições de governar. Prefiro isto ao desastre em que estávamos metidos com De La Rúa", afirmou.Nas ruas de Buenos Aires, ninguém duvida de que, tanto agora, sob o mandato provisório de Adolfo Rodríguez Saá, quanto depois de março, quando um novo presidente será eleito, o poder estará nas mãos dos peronistas. O professor de Artes plásticas, Lazaro Hurman, observa que, daqui a três meses, não haverá propriamente uma eleição, mas um referendo popular ao nome que for indicado pelo Partido Justicialista."Será uma corrida com um só cavalo, porque não há alternativa política possível", diz ele. "Essa é uma grande novidade para os argentinos."Descrédito - A inevitabilidade do peronismo, no entanto, não diminui o descrédito dos argentinos na classe política. Rodríguez Saá, em particular, carrega no passado um escândalo sexual que o torna pouco palatável para a população. "Um homem assim não gera confiança", afirma o taxista Alberto Lapado. Mas não se trata de um problema que afete apenas o presidente interino. "Nesse momento, não há ninguém em quem as pessoas realmente acreditem, ninguém em quem pareça oportuno votar."Para os argentinos, o futuro é incerto. Ninguém se arrisca a dizer, ainda que por otimismo, que as coisas podem melhorar. "A situação está muito difícil. Mas não tenho idéia se poderão ficar melhores agora", diz a garçonete Micaela Mesa. Para o professor Lazaro Hurman, o que vem pela frente é um período de dificuldades.Como as eleições de março não oferecerão opções políticas aos argentinos, há o risco de que o grau de abstenção ou de votos em branco seja grande, o que não daria ao presidente eleito suficiente força política para governar. Por outro lado, a tensão social é grande, as pessoas estão profundamente insatisfeitas com os políticos e esperam por mudanças. "Se de fato isso ocorrer, será um aviso de que as pessoas estão dispostas a fazer sacrifícios, mas dentro de certas medidas", afirma o professor. Leia o especial

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