AP
AP

Para brasileiro na ONU, mundo 'fracassou' em dar proteção a refugiados sírios

Um dia depois das imagens de um garoto de 3 anos boiando numa praia, comissão indica que 2 mil sírios já morreram afogados

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2015 | 07h08

GENEBRA – O mundo está "fracassando em dar proteção" aos refugiados sírios e países estão fechando suas portas à tentativa dessa população de fugir da morte. O alerta é da Comissão de Inquérito da ONU para o Crimes na Síria, liderada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro. Em seu novo informe publicado hoje, um dia depois da publicação de fotos de um garoto de 3 anos encontrado numa praia que criou um mal estar internacional, Pinheiro alerta que as crianças sírias vivem um "terror" e que 2 mil pessoas já morreram afogadas tentando escapar da guerra.

Segundo ele, mais de 4 milhões de sírios já deixaram o país, além de 7,5 milhões de pessoas que foram deslocadas internamente. Para Pinheiro, não há sinais de que a guerra va terminar e tanto o governo como a oposição tem cometido "crimes de guerra e crimes contra a humanidade". Na prática, o cenário leva a ONU a acreditar que o número de refugiados também vai aumentar nos próximos meses. 

O brasileiro admite que o fluxo « ininterrúpto » de refugiados para os países vizinhos à Síria está "desestabilizando a região e afetando de forma severa os serviços públicos e disponibilidade de commodities", além de criar "desafios sociais e econômicos". 

Mas o resultado tem sido o fechamento de fronteiras dos países vizinhos, "limitando a chance de refugiados de chegar a um local seguro". 

"O espaço de proteção para sírios escapando o conflito está encolhendo", alertou o brasileiro, que ainda indicou que a falta de dinheiro para programas humanitários está "ameaçando a vida dos mais vulneráveis". 

O resultado dessas barreiras tem sido a proliferação do recurso aos traficantes. "Milhares de sírios colocam suas vidas nas mãos de traficantes, tentando viagens perigosas em barcos pelo Mediterrâneo. Mais de 2 mil sírios se afogaram em seu desesperado esforço por atingir segurança na Europa desde 2011", disse. 

Em sua avaliação, o "fracasso global por proteger os síríos está se traduzindo em uma crise no sul da Europa". Para ele, a responsabilidade de dar proteção não está sendo apoiada. "Uma cooperação internacional genuína e uma divisão do peso é imperativo", alerta, indicando que países não podem deportar essas pessoas.

"Precisamos fazer mais pelas vítimas do conflito que foram forçadas a fugir de suas casas e pedir proteção", disse Pinheiro. "É imperativo que a comunidade mundial atue com humanidade e compaixão, desenvolvimento canais legais de migração que aumentem o espaço de proteção para refugiados".

Crianças. Segundo a comissão, a realidade que o garoto de 3 anos sofreu para fugir de seu país é a mesma de milhares de menores. "Crianças na Síria estão demonstrando sintomas de trauma e desordens psicológicas por conta da exposição à violência", indicou.  

 

Entre os meninos, as violações ocorrem tando pelo governo como pelos grupos jihadistas. "A vida das crianças sírios foi destruída pela brutalidade da guerra", disse. "Os atores no conflito estão recrutando e usando crianças nas hostilidades". 

Segundo Pinheiro, o Estado Islâmico passou a exigir na região de Dayr Az-Zawr que cada família mandasse um garoto para a guerra. As execuções de crianças pelo grupo também são frequentes, como em Hasakah, Raqqah e Dayr Az-Zawr, enquanto os pais e outros menores são obrigados a assistir aos atos. O EI ainda força criança a executar as mortes e coloca menores a partir de seis anos de idade para carregar armas. 

De acordo com o informe, "milhares de crianças tem sido mortas e feridas pelos ataques aéreos do governo em Aleppo, Damasco, Dara’a, Idlib e Dayr Az-Zawr". Em maio, uma dessas bombas atingiu o colégio de Al-Rajaa, sem qualquer presença de bases militares. Cinco crianças e vários professores morreram. Algumas escolas em Damasco passaram a dar aulas nos porões. 

Pinheiro também indica que "garotos considerados como tendo idade para lutar" são detidos e torturados com adultos em prisões "desumanas". Em Damasco, algumas prisões chegam a ter crianças de onze anos, torturadas e abusadas sexualmente.  

Entre as meninas, os relatos apontam que o EI "transformou em escravas sexuais a milhares de meninas de menos de 18 anos" e centenas delas foram forçadas a se casar com combatentes.

Mais conteúdo sobre:
onu refugiados sírios crise humanitária

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.