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Para Chávez, EUA são ''golpistas e assassinos''

Presidente critica indicação de diplomata americano e inclusão da Venezuela em lista de países que não ajudam no combate às drogas

REUTERS e AP, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

A revelação feita ontem de que dois físicos do Laboratório de Los Alamos tentaram vender segredos atômicos a um suposto agente venezuelano - na verdade, um investigador do FBI disfarçado - soma-se a uma série de episódios que põe Washington em rota de colisão com a Venezuela. Desde que assumiu o governo, há 11 anos, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, faz dos EUA seu alvo preferido em discursos e comícios políticos.

Até a noite de ontem, Chávez ainda não havia feito comentários públicos sobre as investigações em andamento no Novo México, mas num sinal de que não pretende baixar a guarda diante da Casa Branca perto das eleições legislativas do dia 26, o líder bolivariano anunciou que não receberá as credenciais do embaixador Larry Palmer, designado para comandar a Embaixada dos EUA em Caracas.

"Que ele (Palmer) nem apareça por aqui, pois não vai entrar em território venezuelano. E se eles decidirem não enviar nenhum embaixador, que não enviem. Se decidirem expulsar nosso embaixador de Washington, que expulsem. Isso é problema deles, não nosso", disse Chávez.

A nomeação de Palmer já tinha sido aprovada pelo governo venezuelano. Mas, no mês passado, ao participar de uma sabatina no Senado americano, o candidato a embaixador manifestou preocupação com o aumento da influência de Cuba no comando das Forças Armadas da Venezuela. Ele também disse que "nomeações políticas" de comandantes estariam derrubando o moral das tropas locais. Antes de sua indicação para assumir a embaixada em Caracas, Palmer, um diplomata de carreira, foi embaixador dos EUA em Honduras.

Drogas. No mesmo discurso, Chávez também classificou o governo Barack Obama como "assassino" e criticou um relatório da Casa Branca que classifica Venezuela, Mianmar e Bolívia como "países que fracassaram nos últimos 12 meses em cumprir suas obrigações sob o direito internacional e os acordos internacionais antinarcóticos".

Para Chávez, o documento é "politiqueiro" e "manipulador". Ele citou como exemplo de empenho no combate às drogas a detenção efetuada esta semana do chefe do tráfico de drogas do Valle del Cauca, no oeste colombiano, Jaime Alberto Marin. Na quinta-feira, o ministro da Defesa da Colômbia, Rodrigo Rivera Salazar, referiu-se à ação como um exemplo da cooperação efetiva entre os dois países.

Chávez criticou os EUA por apresentarem-se como julgadores do mundo. "Quem deu ao governo americano esse direito?" Ao ler texto do protesto que será enviado por Caracas a Washington, Chávez disse que os EUA devem "derrubar todas as leis que servem de base para o funcionamento do Estado imperialista americano, em contradição com o direito".

Apesar de manter o tom agressivo ao falar de drogas e rejeitar a indicação de Palmer, Chávez ignorou or rumores sobre supostos planos nucleares, tema que provoca descrença até mesmo entre especialistas.

Estudo de Sarah Diehl, do Centro James Martin para Não Proliferação, concluiu que dificilmente as alianças com o Irã e os acordos de cooperação firmados por Caracas resultarão em um arsenal atômico. A Venezuela é membro do Tratado de Não Proliferação Nuclear e outros pactos. O acordo de cooperação nuclear firmado com a Rússia, em 2008, traz uma cláusula de restrição ao uso de qualquer tecnologia transferida. "Apesar de Chávez ter se manifestado interessado na aquisição de reator nuclear, ele esclareceu que não quer armas nucleares", disse ela.

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