Jorge Saenz/AP
Jorge Saenz/AP

Para coalizão de organizações e ativistas, vacina contra covid-19 deve ser bem comum global

People’s Vaccine Alliance defende que crise atual demanda compartilhamento de conhecimento e imunização gratuita

Entrevista com

Maitê Gauto, gerente de Programas e Incidência da Oxfam Brasil

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 05h00

O desenrolar de campanhas de vacinação em todo o mundo expõe um abismo de desigualdade entre países pobres e ricos. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, os países de alta renda, que detém 15% da população mundial, compraram 45% de todas as vacinas disponíveis no mundo, enquanto cerca de dez países, a maioria deles na África, ainda não conseguiram aplicar uma única dose. Na prática, isto significa que os Estados Unidos têm doses suficientes para imunizar crianças de 12 anos, enquanto o Chade não conseguiu vacinar médicos e enfermeiros que trabalham na linha de frente contra o coronavírus.

Para a People's Vaccine Alliance, coalizão de ativistas e organizações como Anistia Internacional, Oxfam e Global Justice Now, o cenário demanda uma “vacina do povo”, gratuita e baseada em conhecimento compartilhado. “O preço médio cobrado pelas vacinas – US$ 19 – é muito maior que o custo de produção, que gira em torno de US$ 2”, afirma Maitê Gauto, gerente de Programas e Incidência da Oxfam Brasil. “E mesmo com toda essa possibilidade de lucro, as poucas empresas fabricantes de vacinas contra a covid-19 não estão dando conta de suprir a demanda global.”

Confira a entrevista:

Quais são hoje os principais desafios e gargalos na cadeia internacional de fornecimento de vacinas? 

O principal desafio é fazer chegar vacinas para todas e todos, em todos os países. O ritmo de produção e distribuição de vacinas atual não dará conta de fazer isso até o final de 2021. Além disso, temos o gargalo da ampliação da capacidade de produção de vacinas em todo o mundo, e o desafio em relação à propriedade intelectual, transferência de tecnologia e o custo das vacinas.  As grandes farmacêuticas estão lucrando bilhões de dólares na pandemia, com produtos que desenvolveram graças a grandes investimentos públicos de diferentes países – bilhões de dólares – seja nos Estados Unidos, Inglaterra ou mesmo China. O preço médio cobrado das vacinas – US$ 19 – é bem acima do custo de produção, que gira em torno de US$ 2. E mesmo com toda essa possibilidade de lucro, as poucas empresas fabricantes de vacinas contra a covid-19 não estão dando conta de suprir a demanda global. A pandemia criou nove novos bilionários, todos ligados à indústria farmacêutica, com riqueza conjunta de quase US$ 20 bilhões, o que seria suficiente para vacinar todas as pessoas dos países mais pobres ainda este ano.

Quais são, hoje, as principais causas da desigualdade no acesso à vacina entre os países?

O que temos hoje é o resultado de uma corrida muito desigual que começou em 2020, quando os países mais ricos reservaram e compraram mais da metade da produção das potenciais vacinas,  deixando muito pouco para os países mais pobres ou de renda média. Nos países mais pobres do mundo, nove entre 10 pessoas não serão vacinadas em 2021. O poder dos países mais ricos para bloquear quaisquer iniciativas que permitam um aumento da produção das vacinas, como por exemplo a licença compulsória das patentes, também dificulta muito um acesso mais equitativo às vacinas. 

Como avalia a eficácia do mecanismo COVAX até agora, e o que mais poderia ser feito em termos de coordenação mundial para reduzir a desigualdade no acesso à vacina?

O Consórcio Covax é uma iniciativa importante e deveria ser apoiada pelos países mais ricos, por ser também do interesse deles que todos os países do mundo vacinem suas populações. O mundo só estará seguro contra a covid-19 quando todos e todas estiverem vacinados. Só assim será possível ter uma retomada da economia em escala global. Os países mais ricos, uma vez tendo suas populações vacinadas, podem até conseguir recuperar suas economias num primeiro momento, mas lá na frente enfrentarão problemas porque dezenas de outros países estarão com suas economias ainda abaladas pela pandemia. A capacidade do consórcio COVAX é limitada também, diante das condições que temos estabelecidas hoje, o que apenas reforça a necessidade das licenças compulsórias em âmbito global.

Os países ricos são os 'grandes culpados' por este cenário?

Os países mais ricos são responsáveis por se mostrarem pouco solidários em um momento de crise global como o que estamos vivendo, muitos deles ainda não apoiando o consórcio Covax, o que tem como resultado o adiamento do fim da pandemia e o risco de novas variantes colocarem por terra todos os esforços e investimentos feitos até o momento. Além disso, estão priorizando interesses comerciais e a proteção de empresas farmacêuticas, o lucro de alguns poucos acionistas em detrimento da vida e da saúde de milhões de pessoas, que ficam expostas ao vírus por não terem acesso rápido à vacina.

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