REPRODUCAO
REPRODUCAO

Para colegas de centro europeu, físico foi ‘mal julgado’

Professor franco-argelino da UFRJ, proibido de retornar à Suíça, diz ter trocado e-mails com jihadista por ‘curiosidade’

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS e Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2016 | 02h00

Quatro anos após ter sido condenado na França por formação de quadrilha para atos terroristas, o físico Adlène Hicheur, professor franco-argelino da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ainda tem apoios entre acadêmicos em seu país, mas está virtualmente banido das universidades da Europa.

Embora conte com um comitê internacional de apoio, o cientista não pode atuar em instituições públicas na França, nem retornar à Universidade de Lausanne, na Suíça, ou ao Centro de Pesquisas Nucleares da Europa, o renomado Cern.

Sua virtual exclusão do sistema de ensino superior da Europa se dá porque o pesquisador, especializado em partículas elementares, tem “ficha suja”, ou seja, não poderia apresentar às universidades da França ou da UE o equivalente a um atestado de bons antecedentes criminais, pré-requisito para ser aceito na função pública. 

Hicheur foi condenado a 4 anos de prisão em regime fechado em 2012 em um controvertido caso de Justiça na França. Em 2009 o cientista foi flagrado pela Direção Nacional de Inteligência Interior (DCRI), o serviço secreto interno do país, por ter mantido contatos com um membro da Al-Qaeda. Segundo os autos do processo, Hicheur frequentou sites de propaganda jihadista e, sob o pseudônimo de Abou Doujana, trocou mensagens com um homem que se apresentava como Phenixshadow. Em junho de 2009, Phenixshadow questionou o cientista: “Você está disposto a trabalhar em uma unidade operacional na França?” Hicheur então respondeu: “Sim, é claro”.

De acordo com as investigações, o plano envolveria um ataque a militares do 27.º Batalhão de Caçadores Alpinos, de Annecy. Desse efetivo partiam as companhias francesas que combatiam o grupo terrorista Taleban no Afeganistão. 

De acordo com o inquérito, Hicheur estava bem integrado à sociedade francesa – ele foi levado da Argélia para a França com apenas 1 ano –, mas era um crítico feroz das guerras no Iraque e no Afeganistão e ao conflito entre Israel e palestinos. No julgamento, o cientista não negou a troca de mensagens, mas alegou ter entrado em contato com seus interlocutores por “curiosidade intelectual”, além de estar sob o efeito de morfina que tomava durante um tratamento para hérnia de disco. 

Ainda hoje, Hicheur conta com o apoio de acadêmicos na França. Para o também físico Jean-Pierre Lees, presidente do Comitê Internacional de Apoio a Adlène Hicheur – do qual fazia parte Jack Steinberger, prêmio Nobel de Física de 1988 e membro do Cern –, o cientista foi “condenado injustamente por trocas de e-mails”. 

“Ele cumpriu sua prisão e foi libertado pela Justiça. Como a pesquisa era sua paixão, e não podia mais postular a uma vaga na França e provavelmente na Europa, por seu antecedente criminal, ficamos muito contentes pelo convite feito pela UFRJ”, disse Lees ao Estado. Para o físico, Hicheur foi “mal julgado”. “Na época, a Justiça francesa se preocupava mais em perseguir pessoas como Adlène do que com os verdadeiros terroristas. Adlène não é um terrorista.”

Colegas que chegaram a trabalhar com o cientista no CERN garantiram ao Estado que ele era “simplesmente brilhante”. Mas, desde abril de 2015, ele está proibido de entrar na Suíça. O Tribunal Administrativo Federal o considerou uma “ameaça” para a segurança do país e o proibiu de voltar a pisar no território suíço. 

Para a Justiça suíça, “nada leva a crer que, nesse tempo, ele tenha se distanciado de seu interesse, o apoio por um islã radical e o combate jihadista”. “Suas capacidades superiores de investir na pesquisa devem ser consideradas, diante da relação com seu grande interesse pelo movimento jihadistas e os contatos que teve, como uma ameaça para a segurança interna da Suíça”, decretou o tribunal.

A controvérsia em torno do processo na França foi causada porque a lei antiterrorismo francesa trata a intenção de ato terrorista como um ato criminoso. Para o físico Gérard Panczer, ex-presidente do conselho da Comissão de Direitos Humanos da Sociedade Francesa de Física, que interveio em favor do cientista junto ao Ministério da Justiça, o caso Hicheur hoje, após os atentados de Paris, seria encarado de outra forma, ainda mais rigorosa. “A realidade nos mostra hoje que mesmo em meios acadêmicos e estudantis o risco de radicalização existe”, entende.

Mais conteúdo sobre:
UFRJAdlène Hicheurterrorismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.