Para comandar a Líbia, um ''Livro Verde''

Obra de 1975 escrita por Kadafi delimita regras econômicas, políticas e sociais para o país

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Quando assumiu o poder aos 27 anos, em 1969, Muamar Kadafi ainda idolatrava o arabismo do egípcio Gamal Abdel Nasser, que influenciou toda uma geração de líderes árabes. Mas, no início dos anos 70, o pensamento arabista perdia força diante das derrotas do Egito e seus aliados em guerras contra Israel.

Sem ser religioso, comunista ou adepto do capitalismo, Kadafi decidiu inovar e criar a sua própria ideologia, que mistura um pouco de islamismo, socialismo e tribalismo. Ele a delineou no pequeno Livro Verde, que é uma leitura obrigatória para toda a população líbia e está disponível em inglês e português na internet.

Nesta obra, publicada em 1975, o líder líbio criou regras econômicas, políticas e de condutas sociais para uma sociedade idealizada onde ele buscava superar todos os problemas, na sua visão, da democracia, da economia e da sociedade mundial. Fala do papel da mulher e até de atividades esportivas, passando por métodos educacionais e instrumentos financeiros.

A primeira parte do livro, que pode ser lido facilmente em menos de uma hora, trata de questões políticas. Na avaliação de Kadafi, o Parlamento, partidos e mesmo a classe política não são democráticos.

"O Parlamento é uma representação errada do povo. Os sistemas parlamentares são uma falsa solução para o problema da democracia", escreveu o líder líbio.

Para Kadafi, os partidos políticos são "uma forma contemporânea de ditadura". Nem mesmo os plebiscitos contam com o apoio dele. "São uma fraude contra a democracia. Aqueles que dizem "sim" ou "não", na realidade, não estão expressando a sua vontade livremente porque não podem dizer mais do que "sim" e "não"."

A única forma de obter uma democracia real são as conferências populares, segundo Kadafi, já que a democracia direta seria inviável por ser "impossível reunir todas as pessoas em um só local". Como em um anúncio publicitário, o líder líbio afirma que o "Livro Verde guia a massa para um sistema prático de democracia direta sem precedentes".

Sempre citando a "Terceira Teoria Universal", Kadafi explica o método que basicamente consistiria em assembleias populares que escolheriam seus representantes em um sistema não muito diferente do parlamentar que ele tanto critica.

Sua teoria econômica condena tanto marxistas quanto capitalistas e busca uma terceira via, como é comum ao longo do livro. Para começar, ele é contra o pagamento de salário e diz que cada pessoa é proprietária do que produz.

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