Jorge Silva/Reuters
Jorge Silva/Reuters

Para conter crise, Venezuela anuncia pacote cambial

Governo transfere um quarto dos gastos em dólares para mercado secundário; para economistas, medida é desvalorização disfarçada

O Estado de S. Paulo,

22 de janeiro de 2014 | 23h32

CARACAS - A Venezuela anunciou nesta quarta-feira, 22, uma nova política cambial, que representa, na verdade, uma desvalorização disfarçada na avaliação de economistas. Na reforma do sistema, o governo aprofundou a divisão do mercado com a transferência de um quarto dos gastos em dólares para um mercado secundário, no qual a moeda é cotada por quase o dobro do valor atual.

"Teremos um novo sistema cambial. Estamos construindo um sistema de bandas", anunciou ontem Rafael Ramírez, ministro do Petróleo e principal assessor de economia do presidente, Nicolás Maduro. Ramírez fez questão de sublinhar que não se trata de uma desvalorização.

O ministro explicou que setores como o de turismo e importação de produtos não prioritários passarão a operar sob as regras de mercado, onde o dólar é cotado em 11,30 bolívares. Produtos alimentícios e de saúde, segundo Ramírez, continuam negociados com o dólar preferencial (também conhecido como Cadivi - Comissão de Administração de Divisas), a 6,30 bolívares. "O Sicad (Sistema Complementar de Administração de Divisas) transforma-se na banda superior de um novo sistema cambial", declarou.

"Esse é um regime de câmbio múltiplo, como o que existiu entre 1983 e 1989. Câmbio duplo implica desvalorização disfarçada. Simples assim", escreveu em sua conta no Twitter o ex-presidente do Banco Central venezuelano Jesús Guerra. Especialistas estimaram que esse sistema representaria uma desvalorização indireta estimada entre 12% e 13%, já que 15% das operações são transferidas para o mercado do Sicad (que negocia a 90% acima do oficial).

"Não entrarei no debate sobre se houve uma desvalorização aqui. Não cederemos à chantagem do inimigo de nossa pátria. Isso não é uma desvalorização, é um sistema cambial distinto", argumentou Ramírez.

Alguns dos principais gastos com o dólar a 6,30 se referem a passagens aéreas, operações com cartões de crédito no estrangeiro e remessas de dólares. Até agora, cada venezuelano tinha direito ao equivalente a US$ 3 mil pelo câmbio preferencial. "Não podemos mais dar taxa preferencial (aos venezuelanos) que viajam", disse Ramírez.

Na Venezuela, onde a inflação anual é de 56%, existe um rígido controle de câmbio. Ao mesmo tempo que o dólar oficial Cadivi está cotado a 6,30 bolívares, no mercado paralelo, a cotação chegava ontem à tarde a 77 bolívares. Maduro prometera manter o dólar preferencial inalterado. "As medidas de ajuste no tipo de câmbio (desvalorização) aliviam, mas dentro de pouco tempo as pressões serão iguais às de agora", escreveu em seu perfil no Twitter o diretor da consultoria Econométrica, Henkel García. "Outra conclusão mais clara é a de que 6,30 é uma taxa insustentável. Mais adiante, 11,30 também será."

Maduro declarou ontem à noite em sua conta no Twitter que as medidas servirão para fazer avançar "o crescimento da economia real" e "vencer a guerra econômica". Nos últimos oito meses, a moeda valorizou-se pelo menos cinco vezes no mercado paralelo enquanto permaneceu fixa no oficial. Ramírez também preside a petroleira estatal PDVSA, que aporta 96% dos ingressos na Venezuela.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.