REUTERS/Marko Djurica
REUTERS/Marko Djurica

Para conter refugiados, países da UE adotam práticas condenadas pela ONU

Braceletes, vagões especiais para refugiados, camburões, grades, arame farpado, violência policial e outros abusos dos direitos humanos fazem parte das ferramentas usadas por países europeus para impedir chegada de imigrantes ilegais ao continente

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL ROSZKE, HUNGRIA, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2015 | 07h00

Do outro lado de uma grade com 3 metros de altura e arame farpado, um jovem sírio faz um sinal à reportagem do Estado e murmura com um forte sotaque um apelo: “Por favor, liberdade”. No esforço de conter o maior fluxo de refugiados na Europa desde os anos 40, governos de diversos países têm adotado medidas denunciadas por entidades de direitos humanos como violações que lembram práticas adotadas na 2ª Guerra.

O Estado atravessou quatro países em uma semana e se deparou, em todos eles, com medidas drásticas adotadas pelos governos para tentar frear a chegada de pessoas. Braceletes de identificação, vagões especiais para refugiados, camburões, grades, arame farpado e a violência da polícia fazem parte do trajeto de milhares de pessoas fugindo de conflitos.

Na Sérvia, apesar da existência de um sistema de transporte público entre a região de fronteira e cidades na Hungria, as autoridades optaram por suspender os serviços. No seu lugar, abriram uma linha de ferro desativada para permitir que os refugiados possam chegar à Hungria caminhando. Ali, sem assistência, informação ou sequer água, muitos afirmam estar perdidos sobre o que vai ocorrer. “Aqui já é a Alemanha?”, questionou um deles, enquanto caminhava apressado.

Quem chega ao outro lado da fronteira se depara com uma estrutura repressiva. Com luvas, máscaras sanitárias, capacetes e escudos, os policiais húngaros fazem um cordão para impedir a passagem dos refugiados. “Eu me sinto um lixo quando um policial se aproxima com essa máscara”, diz Ali, que estudava engenharia em Alepo. “Eu não sou contagioso”. 

Num campo de refugiados com pelo menos 2 mil pessoas, existe apenas um médico oferecido por uma ONG local. Na última semana, pelo menos duas mulheres tiveram partos ali mesmo, ao lado de um campo agrícola e com um forte cheiro de lixo. 

Os alimentos são poucos e, por semanas, Budapeste recusou uma oferta das Nações Unidas para montar abrigos de madeira. O medo era de que, com uma estrutura, os refugiados se sentissem incentivados a ficar. “Dormimos no chão e, pela noite, muita gente ficou doente”, afirmou a síria Rasha, mãe de duas crianças.

Dali, eles são levados a um centro de detenção, muitos transportados em caminhões usados para transferir prisioneiros e impedidos de ter contato com a imprensa ou com moradores locais. De dentro de um desses camburões, um dos refugiados pediu à reportagem: “Posso ir com você?”. Quando foi questionado para onde iria, ele apenas disse: “Para qualquer lugar”. 

Humilhações. No local de detenção, eles são obrigados a registrar impressões digitais e formam filas, observados pelas forças de ordem. “Um policial agarrou meu braço e outro forçou meus dedos em um papel”, acusou Khaled, de Damasco. 

A partir de Budapeste, milhares pegaram trens em direção à Áustria e à Alemanha. Mas, ali também, as medidas constrangem os defensores de direitos humanos. Apesar de todos terem de comprar passagens, filas separadas são montadas para embarcar. De um lado, os húngaros e outros passageiros “comuns” são escoltados aos trens pelos policiais. 

Do outro lado, uma fila que em média dura sete horas é formada todos os dias pela manhã com centenas de refugiados, cercados por policiais, sempre com suas máscaras sanitárias. Apesar de todos terem a mesma passagem, os refugiados são ordenados a entrar em vagões no final do trem, separados do restante dos passageiros.

Outra prática comum tem sido o uso de braceletes e tarjas para identificar os refugiados. Na República Checa, centenas deles começaram a arrancar as peças colocadas nos pulsos. A resposta do governo foi a de escrever o número de registro no braço, o que causou críticas muito mais severas. “Não existe lei que permita a polícia fazer isso”, declarou Zuzana Candigliota, uma advogada ativista da Liga Checa de Direitos Humanos. Para grupos, a prática foi considerada uma lembrança negativa das atitudes adotadas pelo governo da Alemanha nazista em campos de concentração. O governo checo tentou explicar, alegando que haviam muitas mães com crianças e a meta era não perdê-las. O número do trem em que embarcavam também era marcado. 

Dignidade. Na ONU, o porta-voz para assuntos de refugiados, William Spindler, confirmou que a imposição dos braceletes e a marcação numérica nos corpos não são práticas que as Nações Unidas sugerem ou aceitam. “Basta dar um documento ao refugiado”, disse. 

Peter Salama, diretor regional do Unicef no Oriente Médio, também alertou para a humilhação sofrida por muitos. “Eles são refugiados. Estão saindo porque não têm futuro. Precisamos lembrar do que viveram e precisam ser tratados com dignidade”, disse.

Um quarto dos refugiados é de crianças e especialistas alerta que o trauma da viagem as vias de muitos os para sempre. “Tememos um impacto de uma geração”, disse Salama. 

Mesmo do lado da Alemanha, onde o sentimento entre os refugiados é de que estão em seu destino final, a recepção é um misto de alívio e surpresa com o tratamento. Abdul al-Hakan, que vivia na periferia de Damasco, se recusa a ter a foto de seu rosto divulgada, mas mostra à reportagem que, ao cruzar a fronteira da Áustria com a Alemanha, foi direcionado para um centro da polícia na pequena cidade de Passau. 

Dali, ele seria enviado a uma das regiões do país para recomeçar sua vida. Mas, enquanto seu processo fosse tratado, foi obrigado também a usar um bracelete com um número de registro: 369/1. 

Segurança. Ao Estado, a polícia local explicou que o bracelete é uma forma de identificar mais rapidamente cada pessoa, desde a fronteira até seu destino final dentro da Alemanha e para que os agentes de segurança em outras estações de trem possam atuar. “Só animais ou prisioneiros são marcados assim. Qual deles eu serei aqui?”, reclamou Hakan, inconformado.

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O sonhador: ‘Quero ser uma estrela do futebol alemão’

O sonho de Kakaria Mohamed Faris, de 14 anos, é ser “uma estrela do futebol alemão”. Ele viajou sozinho por duas semanas entre Damasco e a Alemanha. Diante da guerra na Síria e preocupados com o fato de as aulas terem sido interrompidas por dois anos seguidos, seus pais decidiram gastar quase tudo o que tinham para garantir que ele tivesse um futuro. </p>

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL ROSZKE, HUNGRIA, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2015 | 07h00

“Eles me mandaram para a Alemanha para estudar. Mas quero ser jogador”, disse o garoto, em um centro para menores na cidade de Passau, na Alemanha. Ao saber que a reportagem era do Brasil, ele fez questão de se apresentar para conversar. “Você tem como conseguir um lugar num time brasileiro? Sou muito bom”, garantiu, mostrando fotos em seu celular do “tempo em que jogava” em Damasco. 

Seu sorriso parecia ter sobrevivido às bombas e ao trajeto de duas semanas. Agora, só sonha em aprender rapidamente a língua local, fazer amigos e achar uma forma de ser aceito num clube. Questionado se aceitaria ser alemão, ele não duvidou. “Claro, eles são os melhores do mundo.” Instantes depois, foi a vez de ele perguntar: “Como é que o Brasil perdeu de 7 a 1?” O Bayern de Munique anunciou que está abrindo um centro para acolher refugiados e oferecer “treinamento de futebol” como forma de aliviar o sofrimento dos garotos refugiados. 

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O pessimista: ‘Perdemos tudo, até um pouco de humanidade’

<span style="line-height:1.6">Doha Mohamed era um arquiteto de sucesso na cidade síria de Alepo. Quando finalmente decidiu abandonar sua casa, em parte destruída, já tinha vendido tudo o que tinha. Carro, projetos, televisão e até dois computadores. Mas sua maior perda foi a morte de seu pai e de um irmão.</span></p>

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL ROSZKE, HUNGRIA, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2015 | 07h00

Aos 44 anos, ele conseguiu trocar dinheiro com “grupos armados radicais” e partiu rumo à Europa. Levou cerca de 12 mil euros para pagar os traficantes, comer e começar uma nova vida. Três semanas depois, chegou à Áustria com apenas 72 euros.

“Perdi tudo pelo caminho”, contou o arquiteto, exausto e desiludido. “A cada trecho, tínhamos de pagar aos traficantes. Não queria morrer em um caminhão, então gastei mais”, explicou. “Essa é a ironia dessa guerra. Vão sair da Síria e sobreviver aqueles com dinheiro. Os pobres são os primeiros a morrer, até mesmo pelo caminho.” 

Mohamed conta que também perdeu “muito dinheiro” quando foi assaltado na Sérvia. “Às vezes, tenho a impressão de que a maldade é maior que qualquer outra força. Como alguém pode roubar um refugiado?” Mas é da Hungria que ele guarda os piores sentimentos. “Foi um pesadelo. O governo húngaro não é humano. Não imaginava que alguém poderia ser assim na Europa, tão rica.” Questionado se ele não via a chegada à Áustria como um novo recomeço, respondeu: “Não sei. O que não perdemos na guerra, perdemos na viagem. Perdemos tudo, até um pouco de nossa humanidade”. 

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O realista: ‘Saímos da guerra. Para onde vamos, não sei’

<span style="line-height:1.6">Ahmed não fala uma palavra em alemão e seu inglês torto mal lhe garantiria um emprego. Ele e três amigos estão entre os milhares de refugiados a fazer o percurso pela Europa esta semana. Na Sérvia, ao saber que a Hungria estava a 20 quilômetros dali, abraçou um dos colegas. Contou seu périplo para sair da Síria – no porta-malas de um carro –, como deixou a noiva em Homs e sobre a surpresa da falta de estrutura na Europa. </span></p>

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL ROSZKE, HUNGRIA, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2015 | 07h00

Questionado sobre seus planos, fez um silêncio. “Saímos da guerra. Mas para onde é que vamos, não sei”, confessou. “Ouvi dizer que a Alemanha nos aceita, por isso vou para lá.” 

O sírio de 24 anos fez um curso técnico de mecânica e espera conseguir um emprego logo. Mas sabe que não terá chances de começar a ganhar a vida enquanto não aprender a língua. “É muito difícil?”, perguntou.

Uma das preocupações das autoridades alemãs é com a integração. Temendo a proliferação de células radicais, as autoridades querem evitar a formação de guetos. Para isso, evitarão colocar todas as crianças sírias em uma mesma classe e esperam incluí-las em grupos com forte presença de alemães. O governo prevê distribuir 300 euros mensais a cada refugiado, além de colocá-los em residências populares. Mas sabe que, se não achar uma solução permanente para a renda dessa população, aprofundará a tensão social que já cresce entre os alemães e os estrangeiros.

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