Para críticos, Cristina desdenha do povo

Políticos ligados à oposição consideram sinal de 'menosprezo' o silêncio do governo sobre manifestação que levou 700 mil às ruas

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h02

O protesto de mais de 700 mil pessoas que marcharam pelas ruas da capital argentina batendo panelas na quinta-feira à noite, numa manifestação contra as políticas do governo de Cristina Kirchner, passou a ser considerado o maior desafio político já lançado contra a presidente.

Além dos manifestantes em Buenos Aires, dezenas de milhares de pessoas protestaram nos municípios da região metropolitana da capital e nas cidades do interior. No total, de acordo com várias estimativas, mais de um milhão de pessoas - convocadas pelas redes sociais, oficialmente sem a participação dos partidos da oposição - participaram ativamente dos panelaços.

No entanto, apesar da intensidade do panelaço, nas primeiras horas após a manifestação, a maior parte do governo Kirchner optou pelo silêncio. Os poucos representantes da administração kirchnerista que falaram o fizeram para minimizar a manifestação e destacar que o panelaço careceu de liderança.

"Eles não tiram o sono do governo", disse o senador kirchnerista Aníbal Fernández, braço direito da presidente na Câmara Alta.

As declarações do governo causaram irritação na população. Nas redes sociais começou a mobilização para organizar um novo panelaço nos primeiros dias de dezembro, coincidindo com o aniversário de posse do segundo mandato de Cristina.

Ontem (sábado), um dos líderes do partido Proposta Republicana (PRO), de centro-direita, Horacio Rodríguez Larreta, afirmou que "as pessoas reclamaram contra a falta de segurança, a inflação e outros assuntos que afetam suas vidas todos os dias. Mas a presidente Cristina, além de não prestar atenção nisso, desrespeita o povo disparando ironias".

O secretário-geral da Confederação-Geral do Trabalho (CGT), o líder caminhoneiro Hugo Moyano, que rompeu com a presidente Cristina no começo deste ano, depois de oito anos de aliança, afirmou ontem que "Cristina está menosprezando as reclamações da população".

Moyano está organizando um protesto sindical para as próximas semanas contra o governo kirchnerista.

Os analistas políticos em Buenos Aires especulam sobre as eventuais reações do governo nos próximos tempos em relação ao panelaço. O cientista político Julio Burdman, da Universidade de Belgrano (mais informações nesta página), disse ao Estado que "uma das possibilidades é a de o governo reagir de forma paranoica. E possivelmente o governo falará pouco sobre o panelaço, sem emitir críticas ferozes. E considero recomendável que o governo mude a forma de se comunicar... mas acho que não farão isso.".

A analista de opinião pública Graciela Romer afirmou ao Estado que "esta manifestação popular não conta com uma liderança, tal como está acontecendo em outras partes do mundo atualmente".

Cristina tem sido duramente criticada nos últimos meses pela ineficácia do governo de conter a inflação, as rígidas medidas de controle de entrada e saída de dólares do país e a insistência numa Lei de Mídia que tem como objetivo claro atingir o grupo jornalístico Clarín - que considera seu inimigo político.

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