Brendan McDemid
Brendan McDemid

Para descobrir autores de vazamentos, governo Trump mirou democratas no Congresso

Medida do Departamento de Justiça foi altamente incomum, dizem especialistas

Katie Benner, Nicholas Fandos, Michael S. Schmidt e Adam Goldman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2021 | 23h02

Enquanto investigava quem estava por trás do vazamento de informações confidenciais no início do governo Trump, o Departamento de Justiça tomou uma medida altamente incomum: os promotores intimaram a Apple para obter dados das contas de pelo menos dois democratas na Comissão de Inteligência da Câmara, seus assessores e parentes -- incluindo um menor.

Ao todo, os registros de pelo menos uma dúzia de pessoas ligadas à Comissão foram apreendidos em 2017 e no início de 2018. Eles incluíam os do deputado Adam Schiff, da Califórnia, à época o principal democrata do painel e agora seu presidente, disseram funcionários da Comissão e duas pessoas familiarizadas com o caso.

Os promotores, sob comando do então secretário de Justiça Jeff Sessions, procuravam as fontes por trás de reportagens sobre contatos entre associados de Donald Trump e a Rússia. Em última análise, os dados e outras evidências não vincularam a Comissão aos vazamentos, e os investigadores debateram se haviam chegado a um beco sem saída. Alguns até discutiram o fechamento do inquérito.

Mas William Barr reviveu as enfraquecidas investigações sobre vazamentos depois que se tornou secretário de Justiça, um ano depois. Ele transferiu um promotor de confiança de New Jersey com pouca experiência relevante para o principal Departamento de Justiça para trabalhar no caso relacionado a Schiff, além de outras seis pessoas, de acordo fontes familiarizadas com o caso.

O zelo nos esforços do governo Trump para caçar pessoas que repassaram informações à imprensa levou à extraordinária etapa de intimação de metadados de comunicações de membros do Congresso - um movimento quase inédito fora das investigações de corrupção. Embora as investigações de vazamentos do Departamento de Justiça sejam rotineiras, funcionários do Congresso e ex-congressistas familiarizados com a investigação disseram que não conseguiam se lembrar de uma instância em que os registros de legisladores tenham sido apreendidos como parte de uma.

Além disso, assim como fez na investigação de organizações de notícias, o Departamento de Justiça conseguiu uma ordem de silêncio contra a Apple que expirou este ano, de acordo com uma pessoa familiarizada com a investigação, de modo que os legisladores não sabiam que estavam sendo investigados até que a Apple os informou no mês passado.

Os promotores também conseguiram intimações para que os registros dos repórteres tentassem identificar suas fontes confidenciais, um movimento que a política do departamento permite apenas depois que todas as outras vias de investigação forem esgotadas.

As intimações permaneceram secretas até que o Departamento de Justiça as divulgou nas últimas semanas às organizações de notícias - The Washington Post, The New York Times e CNN - revelações que geraram críticas de que o governo estava atacando a liberdade de imprensa.

As ordens de silêncio e apreensão de registros mostram o quão agressivamente o governo Trump perseguiu as investigações enquanto Trump declarava guerra à mídia.

“Apesar de haver previsão suficiente para a investigação do vazamento em si, me parece extremamente agressivo”, disse David Laufman, um ex-funcionário do Departamento de Justiça que trabalhou nas investigações do vazamento. “Em combinação com a vingança inconfundível do ex-presidente Trump contra o congressista Schiff, isso levanta sérias questões sobre se a maneira pela qual esta investigação foi conduzida foi influenciada por considerações políticas em vez de puramente legais.”

Um porta-voz do Departamento de Justiça não quis comentar, assim como Barr e um representante da Apple.

Com o passar dos anos, alguns funcionários argumentaram em reuniões que as acusações estavam se tornando menos realistas, disseram ex-funcionários do Departamento de Justiça. O governo Trump também divulgou algumas das informações, tornando mais difícil para os promotores argumentar que sua publicação prejudicou os Estados Unidos. E os ataques do presidente a Schiff e a James Comey, ex-diretor do FBI,  permitiriam aos advogados de defesa argumentar que quaisquer acusações eram tentativas de exercer o poder de aplicação da lei contra os inimigos de Trump.

Mas Barr instruiu os promotores a continuar investigando, alegando que a Divisão de Segurança Nacional do Departamento de Justiça permitiu que os casos enfraquecessem, de acordo com três pessoas informadas sobre o assunto. Alguns casos não tiveram nada a ver com vazamentos sobre Trump e envolveram informações confidenciais de segurança nacional, disse uma das pessoas. Mas a visão geral de Barr sobre os vazamentos levou algumas pessoas no departamento a eventualmente ver as investigações como politicamente motivadas.

Schiff afirmou que as intimações foram “outro exemplo de Trump usando o Departamento de Justiça como um porrete contra seus oponentes políticos e membros da mídia”.

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