Para diplomatas, Mugabe só sai do poder com golpe

O governo do Reino Unido, antigo poder colonial do Zimbábue, e outros governos ocidentais acreditam que a forma mais provável de o presidente Robert Mugabe deixar o poder no país africano é através de um "golpe palaciano" liderado por facções de seu próprio partido. Um golpe militar seria pouco provável. Ao invés disso, haveria um acúmulo insuportável de pressão. Mas também é possível que ele possa enfrentar seus críticos, concorrer e conseguir mais um mandato de seis anos como presidente no ano que vem, apesar de já ter 83 anos de idade.Mugabe é tido como pivô da crise econômica no país e é acusado de abuso de poder e de intimidar opositores - o líder da oposição, Morgan Tsvangirai, foi recentemente espancado depois de ser detido pela polícia em uma manifestação.A crise no país teve início quando Mugabe ordenou o confisco de terras de fazendeiros brancos em 2000, deixando em frangalhos uma das economias mais desenvolvidas da África. Hoje o Zimbábue enfrenta uma inflação anual de 1.700%, a mais alta do mundo.Oposição fracaAparentemente diplomatas estrangeiros não acham que o líder da oposição Morgan Tsvangirai seja forte o suficiente no momento para realizar uma mudança. "A oposição foi varrida das ruas", disse um deles.Por isso eles estão observando pessoas dentro do partido do governo, Zanu-PF. Os nomes do ex-general Solomon Mujuru (cuja esposa, Joyce, está na vice-presidência do país) e Emmerson Mnangagwa, ex-chefe de segurança, estão sendo mencionados como possíveis líderes no futuro, com o ex-ministro das Finanças, Simba Makoni, como primeiro-ministro.E estão sendo emitidos sinais de que teria que haver uma mudança de direção, e não apenas de personalidade, para que o Zimbábue possa ser reintegrado na comunidade internacional."O ano de 2007 é crucial", disse um alto funcionário do governo britânico aos repórteres em Londres. O problema é que tivemos anos cruciais antes e nada mudou. Diferenças Desta vez, na visão do Reino Unido, é diferente. As eleições acontecem e há uma catástrofe econômica, em que a inflação pode chegar a 5.000% ainda neste ano. Além disso, existem divergências internas dentro do Zanu-PF, que em dezembro recusou pedido de Mugabe de ficar no cargo até 2010. Há ainda inquietação entre a população e o isolamento internacional do Zimbábue - e que vem aumentando em relação aos países vizinhos.O governo britânico acredita que há vários cenários para a saída de Mugabe. Ele pode negociar seu afastamento do poder, pode ser forçado a sair ou pode haver uma revolta popular.Os dois primeiros são considerados os cenários mais prováveis, com seu afastamento arquitetado de alguma forma por seu próprio partido. E os governos ocidentais estão formulando agora o que chamam de "princípios de re-inclusão". Estas são as condições básicas sob as quais eles ajudarão um sucessor de Mugabe. Um novo líder teria que estabilizar a economia, interrompendo a emissão de moedas para começar, restaurando o estado de direito, pondo fim à violência e realizando eleições.A idéia de uma força de paz para ajudar neste processo não foi descartada.O Reino Unido está ajudando advogados de direitos humanos, sem alarde, embora negue que esteja financiando a oposição. As autoridades britânicas também estão colhendo informações sobre violência por parte do governo do Zimbábue, deram um total de cerca de US$ 300 milhões em ajuda nos últimos anos e estão encorajando o isolamento internacional do Zimbábue.Mas ele não quer dar a Mugabe um pretexto para ser atacado, então está impedindo que seu embaixador, Andrew Pocock, que está em Londres no momento, fale publicamente, ao contrário de seu colega americano, Christopher Dell.Futebol políticoUm obstáculo para aumentar a pressão internacional sobre Mugabe é que ele é visto como um libertador no sul da África. Antiga Rodésia, o Zimbábue se tornou independente do Reino Unido em 1980, e Mugabe, veterano líder pró-independência se tornou o primeiro-ministro do país.A África do Sul tentou uma diplomacia discreta mas não deseja se envolver em condenação pública. Os sul-africanos poderia interromper o fornecimento de energia elétrica para o Zimbábue, mas reluta em fazer isso. O governo britânico tem a esperança, aparentemente remota, de que a África do Sul queria uma mudança no Zimbábue a tempo da Copa do Mundo de 2010, que os sul-africanos vão sediar.Mas ninguém está contando com essa mudança.

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