Para ‘direita alternativa’, Trump foi enganado

Para ‘direita alternativa’, Trump foi enganado

Grupos difusores de teorias conspiratórias afirmam que presidente foi vítima de um engodo ao reagir a um ataque químico ‘fabricado’

Adam Taylor, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2017 | 05h00

O ataque químico na Síria chocou o mundo. Mesmo o presidente Donald Trump, que promove uma política externa que preconiza a “América em primeiro lugar”, ficou abalado e decidiu atacar o governo de Bashar Assad. Muitos dos seus aliados elogiaram a medida. Mas a mídia alternativa que apoia Trump pensa diferente e afirma que ele foi levado a cometer um enorme erro.

Antes de os EUA partirem para a ação militar, um comentário sobre o terrível ataque químico da terça-feira – atribuído ao governo sírio – já era difundido na internet, em que se afirmava que fora uma “trapaça”, com o fim de induzir Trump a intervir na guerra da Síria. Os que vêm difundindo essa teoria são ativistas ligados à chamada “direita alternativa”, um pequeno movimento de extrema direita cujos membros são conhecidos por posições sexistas, racistas e antissemitas.

Uma das figuras mais conhecidas ligadas a esse movimento, Mike Cernovich, postou tuítes na quarta-feira afirmando que as imagens devastadoras das vítimas do ataque químico tinham sido fabricadas. Segundo ele, o massacre foi “realizado por agentes infiltrados”.

As mensagens de Cernovich sobre a Síria chegam a um grande público. E foram reenviadas milhares de vezes por seus 245 mil seguidores, apesar de ele ter admitido que não tem tanto conhecimento da situação. “Não tenho uma opinião sobre o ataque químico na Síria porque não sei muita coisa sobre a Síria”, disse ele em outro vídeo.

Cernovich não é o único a insistir nessa tese da “trapaça”. Seu argumento foi repetido em vários websites ideologicamente similares, como o InfoWars, que divulgou uma notícia sugerindo que o ataque químico foi realizado por grupos financiados pelo bilionário George Soros, que apoia causas políticas liberais.

O website do Texas gerido pelo provocador Alex Jones alega que um grupo de socorristas voluntários na Síria conhecido como Capacetes Brancos “teria realizado mais um ataque com armas químicas contra civis” e elaborou uma lista de alegações que qualificou ironicamente como “coincidências”.

Um grupo não americano que ofereceu um argumento similar é o WikiLeaks, organização liderada por Julian Assange, que vive há cinco anos na embaixada equatoriana em Londres.

A conta do WikiLeaks no Twitter, que seria controlada por Assange, divulgou vídeo de um ativista sírio na Alemanha, na, que afirma que extremistas islâmicos estavam provavelmente por trás do ataque químico, não o governo. 

Com exceção do WikiLeaks, muitos dos websites mais populares que promovem a teoria da “trapaça” estão concentrados nos EUA e pouco sabem do conflito na Síria. Mas encontraram aliados no mundo da mídia social focado na Síria, onde as acusações e uso de propaganda são veementes por parte dos que apoiam o governo sírio e também dos que se opõem a ele, com graus variados de veracidade.

Qualquer presidente em uma outra ocasião mal teria prestado atenção à tese. Trump, como seus predecessores, tem à disposição toda uma comunidade de inteligência que lhe oferece informações e contexto. Não precisa prestar atenção a vozes online obscuras. Mas a crescente desconfiança da mídia permitiu a entrada nos debates de teorias conspiratórias. Durante sua campanha e no início do seu governo o próprio Trump mostrou-se disposto a alimentar a desconfiança e recorrer às correntes alternativas.

Trump adulou essa direita alternativa. Mas agora, depois das medidas adotadas contra o regime sírio, ele, que adora teorias conspiratórias, vê-se numa posição nova e talvez estranha, considerado um otário vítima de uma conspiração por muitos que compartilham da sua visão de mundo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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