Para ditadura argentina, EUA toleravam abusos

Líderes da última ditadura militar da Argentina entenderam que Washington estava disposto a fazer vistas grossas ao uso de técnicas sangrentas para calar a oposição, mostram documentos dos Estados Unidos recentemente tornados públicos. Segundo um telegrama assinado pelo então embaixador americano Robert Hill, um alto oficial argentino retornou de uma visita em 1976 a Washington "convencido de que não existe um problema real com o governo dos EUA sobre a questão" dos direitos humanos. Hill disse que os comentários do ministro do Exterior argentino, almirante Guzzeti, foram feitos depois de reuniões com o vice-presidente americano, Nelson Rockfeller, e o secretário de Estado, Henry Kissinger, durante uma visita de duas semanas às Nações Unidas e Washington. "Guzzetti foi aos EUA com a plena expectativa de ouvir advertências fortes, firmes, diretas sobre as práticas de seu governo em relação aos direitos humanos. Ao invés disso, ele retornou em estado de júbilo", escreveu Hill. "As declarações que ele fez para mim desde seu retorno não são aquelas de um homem impressionado com a gravidade dos problemas de direitos humanos vistos pelo enfoque dos EUA", continuou. "A reação de Guzzetti indica pouca razão para preocupação em relação à questão dos direitos humanos". As impressões de Hill estão contidas num telegrama que faz parte dos cerca de 4.000 documentos desclassificados - que deixaram de ser considerados secretos - nesta semana pelo Departamento de Estado dos EUA, e publicados no site do governo na quarta-feira. Os documentos revelam novas informações sobre a "guerra suja" argentina contra a esquerda, durante a ditadura de 1976 a 1983. Durante os seis anos de regime militar, pelo menos 8.900 pessoas desapareceram na repressão da junta militar a grupos esquerdistas, segundo um relatório do governo. Grupos de direitos humanos estimam que tenham sido 30.000 pessoas. Os documentos foram tornados públicos por exigência de grupos de direitos humanos, de familiares de desaparecidos argentinos e de vários países investigando antigos abusos de oficiais militares. Alguns dos documentos - telegramas diplomáticos e outros memorandos de autoridades dos EUA enviados pela Embaixada americana em Buenos Aires para Washington - dão a impressão de que diplomatas americanos consideravam que seu governo não havia deixado claro que os abusos eram motivo de preocupação. Outro telegrama de Hill, enviado em setembro de 1976, afirma que um alto oficial argentino saiu de um encontro com Kissinger em Santiago, Chile, acreditando que o governo dos EUA aprovava o que o regime militar estava fazendo para erradicar os subversivos. "A impressão deles é de que a maior preocupação do governo dos EUA não é com os direitos humanos e, sim, com que o governo argentino conclua tudo rapidamente", escreveu. William Rogers, que foi subsecretário para Assuntos Econômicos durante a administração Ford, disse que Kissinger afirmou repetidamente a autoridades argentinas que a luta contra o terrorismo tinha de ser travada nos limites da lei. Ele afirmou que Kissinger instruiu o embaixador Hill a deixar clara a questão em encontros com oficiais do regime militar. Kissinger não retornou ligações hoje. Apelando por uma pressão maior do Departamento de Estado sobre o governo argentino, Hill escreveu que não poderia pedir mais respeito aos direitos humanos na Argentina se não houvesse primeiro uma reação a partir de Washington. O governo argentino "deve acreditar agora que, se existe qualquer problema com o governo dos EUA em relação aos direitos humanos, ele está confinado a certos elementos do Congresso e ao que considera um segmento menor não- informado da opinião pública. Enquanto persistir essa convicção, será irrealista para esta embaixada pressionar o governo em relação a violações aos direitos humanos", escreveu.

Agencia Estado,

22 Agosto 2002 | 16h04

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