Raul Arboleda/AFP
Raul Arboleda/AFP

Para enfrentar greve que testará seu mandato, Duque fechará fronteiras da Colômbia

Com uma gama diversificada de demandas e reivindicações, os manifestantes colombianos se juntam à onda de agitação social, sem um denominador comum, que abalou recentemente o Equador, o Chile e a Bolívia

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2019 | 20h56

BOGOTÁ - A Colômbia fechará as fronteiras a partir desta meia-noite até a madrugada de sexta-feira para evitar a entrada de estrangeiros que possam alterar a ordem pública na quinta-feira, 21, dia em que ocorrerá um protesto de dimensão nacional contra as políticas do governo.

Nesse dia, o presidente Iván Duque medirá a força de suas políticas enquanto sindicatos, estudantes, indígenas e opositores protagonizarão uma grande marcha na Colômbia contra seu governo, enfraquecido após um ano e meio no poder.

Com uma gama diversificada de demandas e reivindicações, os manifestantes colombianos se juntam à onda de agitação social, sem um denominador comum, que abalou recentemente o Equador, o Chile e a Bolívia.

"O governo nacional, com o objetivo de garantir a tranquilidade das manifestações da próxima quinta-feira, tomou a decisão de fechar as fronteiras (terrestres) e fluviais", disse Christian Krüger Sarmiento, diretor da Migração Colômbia, agência ecarregada do controle migratório do país.

O fechamento das 12 passagens se aplica às fronteiras com Brasil, Equador, Peru e Venezuela, que serão reabertas "em 22 de novembro, às 5h (horário local; 7h em Brasília)".

"Esta é uma medida que busca ou pretende evitar que estrangeiros entrem no território nacional com a vontade de alterar a ordem pública e a segurança", explicou o diretor da agência.

Nos últimos dias, as autoridades colombianas expulsaram ao menos 15 estrangeiros, a maioria venezuelanos, que estavam incitando a violência.

Implacável com atos de vandalismo

"O protesto social pacífico é um direito constitucional, que garantimos, mas seremos implacáveis com atos de vandalismo", disse o presidente Duque na rádio Candela.

Nesta terça-feira, dezenas de militares foram mobilizados nas ruas do centro de Bogotá a pedido da prefeitura, segundo o ministro da Defesa, Carlos Holmes Trujillo

A polícia da capital informou sobre cerca de 30 operações de busca que resultaram na prisão de duas pessoas com explosivos acusadas de provocar violência em protestos anteriores.

Protestos têm demandas diversas 

Com sua popularidade em xeque, a convocação de greve nacional medirá o poder de Duke, que não conseguiu consolidar uma coalizão no Congresso e cujo partido, o Centro Democrático de direita, sofreu reveses nas eleições locais de outubro. 

A grande greve tem sido convocada desde outubro pelo Comando Nacional Unitário, que une as principais centrais dos trabalhadores, diante de supostas iniciativas governamentais para flexibilizar o mercado de trabalho e enfraquecer o fundo de pensão do Estado em favor de fundos privados e aumentar a idade da aposentadoria.

Duque nega apresentar projetos legislativos para esses fins, embora os ministros do Trabalho e Finanças tenham sido a favor de reformas nesse sentido. 

"O protesto não tem outra intenção senão pressionar o governo, a classe dominante deste país, a responder aos problemas da classe trabalhadora", disse à France-Presse Julio Roberto Gomez, presidente da Confederação Geral do Trabalho.

As centrais dos trabalhadores, que têm um poder de convocação mais fraco do que outras da região, foram acompanhadas por estudantes universitários que exigem mais recursos para a educação pública. 

Os indígenas pedem proteção após o assassinato de mais de 50 membros da comunidade neste ano no problemático departamento de Cauca (sudoeste).

A eles se juntam artistas, organizações sociais e grupos de oposição, como as Farc, partido que emergiu do pacto de paz que apoia a greve em rejeição ao assassinato de 170 ex-combatentes que assinaram o acordo. 

Os movimentos de protesto enfatizam seu repúdio à violência contra líderes sociais, que deixou 486 mortos entre 1 de janeiro de 2016 e 17 de maio de 2019, de acordo com a Defensoria Pública.

Para o presidente Duque, o que existe é uma campanha para desencadear a ira entre os colombianos: "Toda a sociedade tem de rejeitar vandalismo, saques, agressões, violência daqueles que muitas vezes querem pescar em águas turbulentas".

O partido do governo, liderado pelo ex-presidente e senador Álvaro Uribe, diz que as mobilizações respondem a uma "estratégia do Foro de São Paulo", que reúne organizações latino-americanas de esquerda para "desestabilizar" a democracia na região. 

Desde que assumiu o cargo em agosto de 2018, Duque enfrentou várias manifestações de rua por suas propostas econômicas, por sua política de segurança focada no combate ao tráfico de drogas e por sua tentativa de modificar o acordo que desarmou as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)

Embora o governo preveja um PIB de 3,6% em 2019, a quarta economia latino-americana apresenta uma das mais altas taxas de desigualdade e desemprego da região./AFP e EFE  

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