Para entender o Oriente Médio real

Filme sobre um bebê palestino salvo por um judeu mostra como entender o conflito e criticá-lo de forma construtiva

THOMAS L. FRIEDMAN, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Acabo de assistir a um notável novo documentário dirigido por Shlomi Eldar, o repórter que acompanha a situação em Gaza para o noticiário do canal 10 israelense. Intitulado Precious Life (Vida Preciosa), o filme conta a história de Mohammed Abu Mustafa, um bebê palestino de 4 meses com uma rara doença imunológica. Comovido pelo sofrimento do bebê, Eldar ajuda o pequenino e a mãe dele a ir de Gaza até o hospital israelense Tel Hashomer para submeter-se a um transplante de medula óssea que pode salvar a vida do menino. A operação custa US$ 55 mil.

Eldar faz um apelo na TV israelense e, horas depois, um judeu cujo próprio filho foi morto enquanto prestava serviço militar doa toda a quantia necessária.

O documentário sofre uma reviravolta dramática quando a mãe palestina do menino, Raida, muito criticada pelos demais habitantes de Gaza por ter o filho tratado em Israel, diz desejar que o filho cresça para tornar-se um homem-bomba e ajudar na retomada de Jerusalém. Raida diz a Eldar: "Desde a menor das crianças, ainda menor do que meu Mohammed, até o mais velho dos idosos, todos nós vamos nos sacrificar por Jerusalém. Temos direito à cidade. Você é livre para ter raiva, então, tenha raiva." Eldar fica devastado pela declaração dela e interrompe a produção do filme.

O filme não é uma peça de propaganda israelense. O drama do salvamento do menino palestino num hospital israelense é contraposto à retaliação israelense contra os foguetes disparados da Faixa de Gaza, que provocam a morte de famílias inteiras de palestinos.

Raz Somech, especialista que cuida de Mohammed como se o menino fosse seu próprio filho, é convocado a Gaza como reservista no meio do filme. A corrida de israelenses e palestinos para salvar uma vida é incorporada ao cotidiano mais amplo de duas comunidades que dilaceram uma à outra.

"Para mim, não há dúvida que a guerra em Gaza é justificada - nenhum país pode aceitar ser o alvo de foguetes -, mas não vi muitas pessoas comovidas com as vidas perdidas no lado palestino", disse Eldar ao jornal israelense Haaretz. "Estávamos tão furiosos com o Hamas que o público israelense quis apenas acabar com Gaza. Foi somente após o incidente do doutor Abu al-Aish - o médico de Gaza com quem conversei ao vivo na televisão depois que um projétil atingiu sua casa e causou a morte de suas filhas, enquanto ele gritava de dor e medo - que descobri que a maioria silenciosa dos israelenses tinha compaixão pelas pessoas, incluindo os palestinos. Descobri que muitos espectadores israelenses partilhavam dos meus sentimentos." Assim, Eldar terminou o documentário que conta como a vida de Mohammed foi salva em Israel.

Este filme impactante reflete o Oriente Médio que conheço - um lugar cheio de uma compaixão incrível, mesmo entre inimigos, e de uma crueldade de tirar o fôlego, mesmo entre vizinhos.

Escrevo agora porque sinto que há algo de errado no ar. Trata-se de uma tendência, tanto deliberada quanto inadvertida, de deslegitimar Israel - transformar o país num Estado pária, principalmente como reação à guerra em Gaza. O diretor Oliver Stone diz maluquices sobre o modo como Adolf Hitler matou mais russos do que judeus, mas os judeus receberam toda a atenção porque dominam as empresas de mídia e o lobby deles controla Washington. O primeiro-ministro britânico descreve Gaza como imenso "campo de prisioneiros" israelense, e o primeiro-ministro turco diz ao presidente de Israel que, "Em se tratando de matar, vocês sabem muito bem como agir".

Para os que acabam de aterrissar no planeta vindos diretamente de Marte, seria de se pensar que Israel é o único país que matou civis durante uma guerra - e nunca o Hamas, nem o Hezbollah, a Turquia, o Irã, a Síria ou os Estados Unidos. Não estou aqui para defender o mau comportamento de Israel. Ao contrário. Há muito tempo afirmo que os assentamentos israelenses na Cisjordânia representam para Israel o suicídio enquanto democracia. Acho que os amigos de Israel não defendem esse aspecto com a merecida frequência nem estardalhaço suficiente.

Mas há dois tipos de críticas. A crítica construtiva começa por deixar claro: "Eu sei em que mundo vocês estão vivendo." Sei que o Oriente Médio é um lugar onde sunitas massacram xiitas no Iraque, o Irã mata seus próprios eleitores, a Síria supostamente mata o ex-primeiro-ministro libanês, a Turquia reprime curdos, o Hamas lança foguetes e rejeita reconhecer Israel. Sei de tudo isso. Por vezes, o comportamento de Israel só agrava as coisas - para os dois lados. Se você mostrar aos israelenses que compreende o mundo em que eles vivem, e depois os criticar, eles lhe darão ouvidos.

A crítica destrutiva faz Israel se fechar. Ela diz aos israelenses: não há nenhum contexto que possa explicar seu comportamento, e suas iniquidades são tão erradas que ofuscam todas as demais. Os críticos destrutivos chamam Gaza de prisão israelense, sem mencionar que, se o Hamas tivesse decidido - depois que Israel se retirou da Faixa de Gaza - transformar a região numa versão de Dubai, e não de Teerã, Israel teria se comportado de maneira diferente também.

A crítica destrutiva só torna mais fácil para que os elementos mais destrutivos em Israel aprofundem seu argumento segundo o qual já que nada que Israel fizer fará diferença, então por que mudar? Que tal todos colocarem uma cópia do documentário em seus aparelhos de DVD, verem o Oriente Médio real e, se ainda quiserem ser críticos, que sejam do tipo construtivo. Uma quantidade muito maior de israelenses e palestinos os ouvirá. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL E CELSO M. PACIORNIK

É JORNALISTA E ANALISTA POLÍTICO

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