Anthony Wallace/AFP
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Para entender: O que acontece em Hong Kong? 

O que começou em junho com a frustração com uma lei sobre extradições explodiu numa ampla rejeição ao controle da China sobre o território

Siobhán O'Grady, Ruby Mellen e Miriam Berger / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2019 | 08h00

Há meses que moradores de Hong Kong tomaram as ruas em manifestações pró-democracia e contra a influência chinesa que estão se tornando cada dia mais violentas. O que começou em junho com a frustração com uma lei sobre extradições explodiu numa ampla rejeição ao controle da China sobre o território. Veja algumas perguntas-chave para ajudar a entender o que está acontecendo:

 

Por que os protestos começaram?

Os protestos começaram em junho ante as preocupações  com a aprovação de um projeto de lei permitindo a extradição de moradores do território para a China Continental. Desde a devolução da metrópole pelo Reino Unido ao domínio chinês, em 1997, Hong Kong e China assinaram o acordo “um país, dois sistemas” que dá aos moradores de Hong Kong um grau de independência que não teriam na China.  

Os que se opõem ao projeto de lei dizem que ele ameaça a semiautonomia de Hong Kong em relação à China e, se aprovado, porá em risco a situação de críticos do regime de Pequim residentes na cidade, que poderiam subitamente se ver à mercê de um sistema legal no qual membros de organizações de direitos humanos estão sabidamente sujeitos a detenção e tortura.  

Funcionários de Hong Kong inicialmente defenderam o projeto, entendendo que ele protegeria o território da entrada de criminosos fugindo de outros sistemas legais. Além disso, a chefe do Executivo local, Carrie Lam, insistiu em que a lei não se aplicaria a temas como liberdade de expressão. Os manifestantes não acreditaram. Em 4 de setembro, Lam retirou formalmente o projeto, mas para os manifestantes já era tarde demais.

O movimento apresentou cinco exigências ao governo de Hong Kong: retirar a extradição prevista no projeto; retirar oficialmente a qualificação de “rebelião” dada aos protestos; derrubar acusações legais contra manifestantes; abrir uma investigação sobre o uso de força pela polícia na repressão; e adotar o sufrágio universal para permitir aos moradores escolher diretamente seus líderes, em lugar do atual processo que inclui o envolvimento de Pequim.

Qual a dimensão real das manifestações?

No início de junho, centenas de milhares de pessoas ocuparam as ruas para protestar. A polícia respondeu com a força, usando gás lacrimogêneo e bastonadas para dispersar as multidões. A resposta levou a mais protestos. Em meados de junho, calcula-se que 2 milhões tomaram as ruas, no que foi provavelmente a maior manifestação da história de Hong Kong.

A polícia alterou rotas “liberadas” pelos manifestantes quando os protestos aumentaram de intensidade,. No início de julho, grupos de manifestantes atacaram a Câmara de Hong Kong, quebrando vidraças e rasgando fotos de funcionários pró-Pequim. Esses incidentes violentos mostraram a possibilidade de um aumento dramático na intensidade do movimento.

No fim de julho, mais de mil manifestantes invadiram o aeroporto de Hong Kong, alertando os viajantes de que eles não estariam seguros na cidade. No início de agosto, milhares voltaram a ocupar as ruas em outra manifestação – a primeira na qual funcionários públicos participaram em um bloco organizado, aos gritos de “povo de Hong Kong, à luta! Funcionários públicos, à luta!”.

Em 5 de agosto, uma greve paralisou grande parte da cidade, com interrupções no transporte público e em operações aéreas. Dezenas de funcionários da Disneylândia de Hong Kong aderiram à greve. Em meados de agosto, outra greve de aeroportuários fez aumentar as tensões entre manifestantes e governo. As autoridades de Hong Kong endureceram, prendendo mais líderes dos protestos.

As manifestações continuaram em setembro e se tornaram cada vez mais violentas. A polícia antimotim aumentou o uso de gás lacrimogênio, balas de borracha e canhões de água contra os manifestantes. Estes, por sua vez, reagiram jogando tijolos, garrafas e coquetéis molotov na polícia.

Ainda em setembro, os manifestantes escolheram novos alvos: empresas com conexões com a China ou supostamente pró-Pequim. “A nova tática mostrou uma raiva em ebulição contra a elite empresarial da cidade, um grupo relativamente pequeno de magnatas e testas de ferro que acumulou enormes fortunas e poder político por meio de relações geralmente suspeitas com a China continental”, informaram Timothy McLaughlin e Casey Quackenbush em reportagem no Washington Post.

O metrô de Hong Kong - antes orgulho da cidade – tornou-se um feroz campo de batalha. A polícia atacou manifestantes que vandalizaram as linhas e os trens e acusaram a operadora do sistema, MRT Corp., de conspirar ao lado do governo.

Em 1º de outubro, a polícia usou munição real pela primeira vez nos confrontos. Lam invocou poderes de emergência para proibir o uso de máscaras e pinturas faciais que ocultassem a identidade dos manifestantes. A solução para os manifestantes foi promover um Halloween versão Hong Kong, com fantasias para esconder a identidade.  

A tensão aumentou em 8 de novembro. O estudante de ciência da computação Chow Tszlok, de 22 anos, morreu após cair do telhado de uma garagem dias antes. A morte foi a primeira diretamente relacionada ao confronto entre polícia e manifestantes.

Dias depois, em 11 de novembro, um policial baleou à queima-roupa um manifestante  desarmaddo, de 21 anos. O policial alegou que a ação (filmada) foi em legítima defesa. Para tornar o dia ainda mais sangrento, horas depois um homem de 57 anos, que supostamente criticara manifestantes por vandalizarem uma estação ferroviária teve as roupas encharcadas com líquido inflamável e foi queimado.  

Em meio à agitação geral, universidades se tornaram novos campos de luta, com um dos piores choques ocorrendo na Universidade Chinesa de Hong Kong.

Como o governo de Hong Kong está respondendo?

Em julho, Lam recuou parcialmente no caso do projeto de extradição, declarando-o “morto”. Os manifestantes ascusaram-na de fazer “jogo de palavras” para que a população pensasse que a lei fora formalmente anulada e exigiram sua renúncia. Ela, porém, continuou no cargo com o apoio de Pequim. Quando Lam finalmente retirou o drojeto de lei, as manifestações não pararam: o movimento já havia ido muito além de um detalhe legal.

No mês passado, Lam participou de um diálgo com representantes do movimento selecionados aleatoriamente. Foi um desastre, com o local da reunião invadido. “Os cidadãos não confiam nem você nem em sua polícia”, disse um manifestante.

A polícia de Hong Kong vem sendo acusada de uso excessivo de força para desbaratar os protestos. Lam encarregou  o Conselho de Reclamações Contra a Polícia, órgão independente, de investigar as acusações. Mas o conselho não tem poder de convocar testemunhas e, segundo manifestantes, está infiltrado por funcionários leais a Lam.   

Com a violência, cresce também a retórica de Lam. Neste mês ela chamou os manifestantes de “inimigos do povo” e advertiu que esles estão “destruindo a sociedade”.

Lam e seus apoiadores de Pequim têm de decidir se realizam as eleições locais previstas para o dia 24. “Se não houver votação, muitos manifestantes poderão interpretar isso como sinônimo do poder das ruas”, avaliou o W. Post. O governo já proibiu Joshuma Wong, importante ativista pró-democracia, de se candidatar. Outro forte candidato, Jimmy Sham, organizador de passeatas pacíficas, foi atacado, pela segunda vez, no mês passado.

 

Como Pequim está reagindo?

A China se mantém firme no apoio a Lam. Em junho, um porta-voz militar chinês disse que, se Hong Kong pedir, Pequim vai mobilizar o Exército de Libertação do Povo para restaurar a ordem. Aliás, a China já vem discretamente tomando algumas medidas. Embora as Forças Armadas chinesas mantenham rotineiramente uma presença em Hong Kong, o número de soldados vem aumentando.

Segundo a Agência Reuters, já há mais de 12 mil soldados chineses em Hong Kong, incluindo membros de uma força paramilitar controlada diretamente pelo governo de Xi Jinping, a Polícia Armada do Povo. Essa unidade está deslocando blindados de transporte de tropas para as proximidades de Shenzhen, cidade fronteiriça com Hong Kong.

Em julho, dezenas de homens portando bandeiras da China surraram manifestantes anti-Pequim com bastões. Os agressores supostamente pertencem grupos mafiosos denominados “tríades”, embora não haja evidências de que funcionários chineses tenham ordenado ataque. Ao mesmo tempo, Pequim desmente que tenha intenções de substituir Lam – apesar de, no início do mês, o PC ter divulgado uma declaração dizendo que iria “aperfeiçoar” o sistema.

 

Que dizem os Estados Unidos sobre a situação?

O governo Trump tem se mantido à distância da inquietação em Hong Kong. Trump considerou o impasse “uma situação muito difícil” e pediu a Xi que administre a situação “com muita responsabilidade”.

No Congresso, porém, há um apoio bipartidário à causa dos manifestantes. Em outubro, a Câmara aprovou por unimidade o Ato pela Democracia e Direitos Humanos em Hong Kong, que prevê sanções para quem “suprimir liberdades básicas” na ilha, além de ameaçar manter comércio em separado com Hong Kong.

O porta-voz da chancelaria chinesa, Geng  Shuang, chamou o ato de “decisão de dois pesos e duas medidas que expõe totalmente a hipocrisia de algumas pessoas nos EUA quando se trata de direitos humanos e democracia”. Geng acusou os EUA de tentarem solapar o disenvolvimento chinês.

O Departamento de Estado disse que está acompanhando o caso “com grave preocupação” e pediu a Pequim que “honre os compromissos” assumidos com Hong Kong. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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