AP Photo/Ng Han Guan
AP Photo/Ng Han Guan

Para entender: O que é a política ‘de uma só China’

Reconhecimento diplomático tem desencadeado mal-estar entre chineses, americanos e taiwaneses diante da ligação recente do presidente dos EUA à líder de Taiwan

O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2016 | 11h37

O governo chinês advertiu nesta segunda-feira, 12, ao presidente eleito dos EUA, Donald Trump, que se não respeitar a política de “uma só China”, não haverá estabilidade nas relações entre ambas as potências. Leia abaixo o que significa esse conceito que tem causado polêmica nos últimos dias entre EUA, China e Taiwan.

Afinal, o que é a política “de uma só China”?

É um reconhecimento diplomático do posicionamento de Pequim de que existe apenas uma China no mundo e Taiwan faz parte dela. Sob essa política, os EUA mantêm laços diplomáticos com Pequim ao invés de mantê-los com os taiwaneses, considerados pelos chineses uma província rebelde a ser reunificada um dia ao continente, segundo a rede britânica BBC.

Como parte dessa política, Washington mantém uma relação não-oficial com Taiwan, incluindo a venda de armas continuada para a ilha. Esse acordo é importante para as relações entre China e EUA, e é um alicerce fundamental da elaboração de políticas e da diplomacia chinesas.

Apesar de o governo de Taiwan alegar que é uma nação independente, chamada oficialmente de República da China, qualquer país que queira manter laços diplomáticos com a China precisa romper qualquer relação com Taipé. Essa política resultou em um isolamento diplomático de Taiwan da comunidade internacional.

Como surgiu?

Essa política foi idealizada em 1949, com o fim da guerra civil na China. Os Nacionalistas, conhecidos como Kuomintang, foram derrotados, voltaram para Taiwan e estabeleceram o seu próprio governo, enquanto os vitoriosos Comunistas estabeleceram a República Popular da China. Ambos os lados diziam que representavam todo o território chinês.

Desde então, o Partido Comunista - que governa a China - ameaçou usar a força se Taiwan algum dia declarar formalmente sua independência, mas tem buscado um caminho diplomático mais suave com a ilha nos últimos anos.

No início, muitos governos, incluindo os EUA, reconheciam Taiwan. Mas os ventos diplomáticos mudaram quando chineses e americanos viram uma necessidade mútua de desenvolver as relações que começaram em 1970, com países cortando laços com Taipé a favor de Pequim. Muitos, entretanto, ainda mantêm relações informais com os taiwaneses por meio de escritórios comerciais ou institutos culturais. Além disso, os EUA permanecem como aliado de segurança mais importante de Taiwan.

Quando os EUA aceitaram isso?

Depois de anos de relações próximas, os EUA estabeleceram laços diplomáticos formais com Pequim em 1979, sob a presidência de Jimmy Carter. Como resultado, os americanos tiveram de cortar a relação com Taiwan e fecharam sua embaixada em Taipé. No mesmo ano também foi aprovado o Ato de Relações de Taiwan, que garante apoio à ilha. Esse acordo prevê que os americanos precisam ajudar os taiwaneses a se defenderem, motivo pelo qual Washington continua vendendo armas para Taiwan. Com isso, os EUA mantêm presença não-oficial em Taipé por meio do Instituto Americano em Taiwan, uma corporação privada responsável por atividades diplomáticas.

Quem são os vencedores e perdedores nessa história?

Pequim se beneficiou muito com a política “de uma única China”, deixando Taipe´à margem das negociações diplomáticas. Taiwan não é reconhecido como um país independente por grande parte do mundo, nem mesmo pelas Nações Unidas, e sofre muitas alterações em seu nome para participar de eventos e instituições, como Jogos Olímpicos e a Organização Mundial do Comércio.

Mas mesmo em seu isolamento, Taiwan não saiu perdedora de tudo. Hoje ela conta com uma economia em movimento, laços culturais com seu vizinhos, e ainda aproveita sua relação emocional com os americanos para conseguir concessões: mantém um pequeno grupo de lobistas poderosos em Washington, incluindo Bob Dole, mencionado pela imprensa americana como o responsável por conseguir os contatos que levaram à recente ligação polêmica entre Trump e a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen.

Quanto aos EUA, a situação beneficia as relações com China - maior fiadora estrangeira e parceira econômica valiosa do país -, enquanto silenciosamente continua ajudando os taiwaneses. A política “de uma única China”  - que também se aplica a Tibete, Hong Kong, Macaué um delicado ato de equilíbrio aperfeiçoado pelos americanos ao longo dos anos. Como ela será tratada sob a gestão de Trump ainda é um mistério.


China Popular, o Tibete, Hong Kong, Macau, Xinjiang e a China Nacional (Taiwan) são,

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