REUTERS/Jorge Duenes
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Para entender: os erros que prolongam a pandemia no México

Falta de confinamento obrigatório e medidas econômicas pouco eficazes para atender às necessidades da população mexicana, segundo especialistas, torna o país o segundo a mais sofrer com a crise na América Latina

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2020 | 03h30

CIDADE DO MÉXICO - Enquanto alguns países se preparam para uma possível segunda onda de covid-19, a pandemia no México se prolonga por dois problemas fundamentais: não ter aplicado confinamento obrigatório e a ajuda financeira ser insuficiente para a população, dizem especialistas.

Rejeitar o confinamento forçado foi uma decisão arriscada do presidente de esquerda, Andrés Manuel López Obrador, justificada pelo respeito aos direitos humanos, mas principalmente pela necessidade de milhões de trabalhadores informais - 56% da força de trabalho - de sair e encontrar sustento.

"Nunca houve uma quarentena rigorosa. Como sociedade, não tivemos disciplina para ficar em casa e as cadeias de transmissão não foram cortadas", diz Malaquías López, ex-funcionário da Saúde e especialista em políticas públicas da Universidade Nacional Autônoma do México, UNAM.

O México, com 127 milhões de habitantes, é o quarto país do mundo em mortes por covid-19 (40.400) e sétimo em infecções (356.255). Na América Latina, apenas o Brasil, com mais de 81 mil mortes e quase 2,2 milhões de infecções entre seus 212 milhões de habitantes, sofreu mais com o coronavírus. 

López Obrador garante que a epidemia está regredindo, embora "muito lentamente", e presume que o sistema de saúde não entrou em colapso. No entanto, o Ministério da Saúde reconheceu que a até terça-feira 21 o crescimento médio de novos casos era de 1,2% ao dia e levaria "alguns meses" para alcançar o controle adequado na maioria dos Estados.

Ideias econômicas 

Outras ideias enraizadas em López Obrador limitaram a ajuda do governo, como uma austeridade obsessiva ou sua aversão ao endividamento e estímulos econômicos, que chama de políticas "neoliberais".

O pacote fiscal mexicano para enfrentar a crise da saúde é equivalente a 1,1% do PIB, o 12º entre 16 países da América Latina e menor que a média de 3,2% atribuída por cada país da região, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

O presidente anunciou programas de apoio para idosos, jovens e crianças, mas passou longe da problemática do confinamento.

Uma das medidas foi a concessão de três milhões de créditos para pequenas empresas e trabalhadores, de cerca de US$ 1.110 cada. Até a sexta-feira 17, 963.831 empréstimos haviam sido distribuídos, segundo o governo.

"Os valores não são consistentes com a realidade", diz César Salazar, acadêmico do Instituto de Pesquisa Econômica da UNAM.

A falta de uma resposta proporcional à crise explica as previsões sombrias para a economia mexicana, que despencou 9% este ano, segundo analistas, e o desemprego, que só em abril arrastou 12 milhões de pessoas. 

A necessidade de subsistência e o desgaste do confinamento - em vigor de março a junho, mas ainda recomendado pelas autoridades - complicariam uma nova quarentena se a epidemia persistir.

Um novo fechamento econômico "seria um golpe muito forte para muitas empresas que foram capazes de sobreviver até agora", diz Salazar, que acredita que nesse cenário o Estado precisaria aumentar o apoio.

Capital

Uma alternativa ao confinamento total são as medidas direcionadas que estão sendo implementadas pela Cidade do México, a área mais afetada pelo novo coronavírus. A capital aumentou os testes de triagem para definir onde restringir a mobilidade, distanciando-se do governo, que reluta em aplicar testes em massa. 

Segundo dados da Universidade de Oxford, o México é o país latino-americano com menos testes por 1 mil habitantes. 

A estratégia de "contenção" da Cidade do México, no entanto, não tem eco no governo nacional, que insiste em garantir assistência médica em vez de conter o vírus. "Estão deixando a pandemia evoluir apenas tentando não saturar os hospitais", sustenta Alejandro Macías, infectologista e "czar" contra a pandemia de gripe AH1N1 de 2009.

Enquanto a capital já está mostrando desaceleração de infecções e ocupação hospitalar, Estados como Baja California Sur, San Luis Potosí e Colima registram alta.

As autoridades previram que, dado o tamanho do território mexicano - quase 2 milhões de quilômetros quadrados -, o coronavírus se manifestaria em surtos regionais, com tempo diferenciado, que precisariam ser combatidos localmente. / AFP

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