Peter Morrison/AP
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Para entender: Os fantasmas dos problemas da Irlanda do Norte estão de volta

Somando-se aos pontos de tensão sectários do mundo, o território britânico da Irlanda do Norte voltou aos noticiários, com sua relativa calma interrompida por violentos tumultos entre grupos que fizeram a paz há 23 anos

The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2021 | 15h00

Somando-se aos pontos de tensão sectários do mundo, o território britânico da Irlanda do Norte voltou aos noticiários, com sua relativa calma interrompida por violentos tumultos entre grupos que fizeram a paz há 23 anos.

As razões para o colapso estão interligadas com a saída do Reino Unido da União Europeia e as tensões da pandemia de covid-19. Mas elas demonstraram o potencial combustível das velhas rixas entre um lado predominantemente católico que deseja que o território seja parte da Irlanda e um outro predominantemente protestante que deseja permanecer parte do Reino Unido. 

Por mais de uma semana, os protestos transformaram-se em confusão nas ruas de Belfast, capital, e em algumas outras partes da Irlanda do Norte, deixando vários policiais feridos. Manifestantes de apenas 13 anos jogaram bombas de gasolina contra a polícia e incendiaram ônibus. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e seu homólogo irlandês, Micheal Martin, expressaram profunda preocupação.

“Boris Johnson está lutando com um problema que está muito perto de casa para ser confortável: a pior violência nas ruas da Irlanda do Norte em muitos anos”, disse Mujtaba Rahman, diretor-gerente da Europa para o Eurasia Group, uma consultoria de risco político, em um e-mail para clientes. As causas subjacentes, disse Rahman, "provavelmente não seriam resolvidas rapidamente". Saiba mais sobre as questões por trás da violência no país.

Que território cobre a Irlanda do Norte?

A Irlanda do Norte tem uma área de cerca de 8,7 mil km² com aproximadamente 2 milhões de pessoas sob a soberania britânica na parte nordeste da ilha da Irlanda, limitada a sul e oeste pela República da Irlanda e a leste pelo Mar da Irlanda, que separa do restante da Grã-Bretanha.

Por que é separado da Irlanda?

A Irlanda tornou-se autônoma há quase 100 anos, após séculos de domínio britânico. Mas o tratado que estabeleceu o autogoverno para a maior parte da ilha, após vários anos de luta feroz na esteira da 1ª Guerra, também continha uma opção de exclusão para a área com a maior concentração de protestantes, cujos líderes se opunham fortemente à perspectiva de tornar-se parte de um Estado de maioria católica. Esta área do norte permaneceu parte do Reino Unido, com uma força policial e um governo local dominado por protestantes durante décadas.

Por que isso é importante?

A divisão da Irlanda se tornou a fonte de um dos conflitos sectários mais violentos e duradouros do século 20, colocando católicos e grupos de oposição ao domínio britânico, incluindo o grupo paramilitar Exército Republicano Irlandês, conhecido por sua sigla em inglês, IRA, contra protestantes e forças pró-britânicas, incluindo grupos militantes leais. Belfast, um antigo epicentro da construção naval e local de nascimento do Titanic, tornou-se um dos "quatro B" - juntando-se a Beirute, Bagdá e Bósnia no panteão dos lugares mais perigosos do mundo. Aproximadamente 3,6 mil pessoas morreram em décadas de conflitos na Irlanda do Norte.

O que acabou com o conflito?

Um acordo conhecido como Acordo de Belfast, também chamado de Acordo da Sexta-feira Santa ou simplesmente o acordo, foi alcançado em 10 de abril de 1998, pelos governos britânico, irlandês e partidos políticos da Irlanda do Norte. Ele criou uma assembleia governamental para o território destinada a garantir a divisão do poder entre protestantes e católicos, e órgãos para facilitar a cooperação entre a Irlanda do Norte e a Irlanda. Ele comprometeu ex-adversários a se desarmar e resolver suas disputas pacificamente. Também permitiu que residentes da Irlanda do Norte obtivessem a cidadania irlandesa ou a dupla cidadania irlandesa-britânica.

Anos de relativa paz se seguiram. Antes considerada uma área proibida para turistas, a Irlanda do Norte se tornou um atrativo. Sua atração foi reforçada pelos criadores de Game of Thrones, a série da HBO, que usou suas paisagens deslumbrantes e diversas como cenário. A estreia do programa em abril de 2011 colocou “o norte da Irlanda no mapa”, disse The Derry Journal, um jornal da segunda maior cidade da Irlanda do Norte.

Por que a violência está aumentando?

A saída do Reino Unido da União Europeia, conhecida como Brexit, perturbou o equilíbrio político na Irlanda do Norte, ameaçando as bases do Acordo da Sexta-Feira Santa.

A Irlanda continua a ser um país membro da UE, e o Brexit levantou a perspectiva de novos controles em sua fronteira terrestre anteriormente irrestrita com a Irlanda do Norte, impedindo o livre fluxo de pessoas e bens e irritando aqueles que gostariam de ver a ilha unificada.

Mas as soluções alternativas para manter essa fronteira aberta criaram novos problemas no comércio entre a Irlanda do Norte e o restantedo Reino Unido, interrompendo o abastecimento das lojas do território e perturbando aqueles na Irlanda do Norte que se consideram britânicos. O ressentimento em áreas protestantes pró-britânicas aumentou e contribuiu para os surtos de violência mais recentes, aumentando o temor de retaliação por parte das comunidades católicas.

Outra fonte de tensão foi a recente decisão da polícia de não processar multidões de enlutados que se reuniram em um funeral em junho para Bobby Storey, um comandante do IRA, apesar da proibição de reuniões em massa por causa da pandemia. Entre os enlutados estavam líderes do Sinn Fein, um partido político com ligações ao IRA que se tornou o principal partido entre os católicos da Irlanda do Norte.

O que pode acontecer a seguir?

Embora não haja expectativas de que a violência vá aumentar para os níveis vistos durante os anos do conflito, quando as forças britânicas foram enviadas para a Irlanda do Norte, os líderes de todos os lados temem o início de um ciclo de ataques de vingança.

A situação difícil da Irlanda do Norte agora se tornou uma questão especialmente delicada para o governo de Johnson. Ele não quer perder o apoio dos protestantes na Irlanda do Norte, que dizem se sentir traídos e privados de direitos. E qualquer aprofundamento das divisões entre a Irlanda do Norte e a Irlanda poderia galvanizar o apoio à unificação irlandesa, que algumas pesquisas sugerem que já aumentou desde o Brexit.

Por enquanto, os líderes políticos de todos os lados estão enfatizando a necessidade de honrar o Acordo de Belfast de 1998, lembrando aos jovens da Irlanda do Norte como ele transformou suas vidas. Martin, o primeiro-ministro da Irlanda, colocou desta forma em comentários no sábado, aniversário do acordo: “Devemos isso à geração do acordo e, de fato, às gerações futuras, de não voltarmos para aquele lugar escuro de assassinatos sectários e discorda política".

 

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